No
acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas
não, não é aquela.
A
outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.
Perco-me
subitamente da visão imediata,
Estou
outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a
outra rapariga passa.
Que
grande vantagem o recordar intransigentemente!
Agora
tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E
tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.
Que
grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao
menos escrevem-se versos.
Escrevem-se
versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar,
Se
calhar, ou até sem calhar,
Maravilha
das celebridades!
Ia
eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas
isto era a respeito de uma rapariga,
De
uma rapariga loira,
Mas
qual delas?
Havia
uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa
outra espécie de rua;
E
houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade
Numa
outra espécie de rua;
Por
que todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo
que foi é a mesma morte,
Ontem,
hoje, quem sabe se até amanhã?
Um
transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional.
Estaria
eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode
ser... A rapariga loira?
É a
mesma afinal...
Tudo
é o mesmo afinal ...
Só
eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal.
Álvaro
de Campos
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quarta-feira, 5 de maio de 2010
sexta-feira, 26 de março de 2010
segunda-feira, 22 de março de 2010
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Fagulhas
Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria rir, chorar,
ou pelo menos sorrir
com a mesma leveza com que
os ares me beijavam.
Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça,
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando.
Eu queria até mesmo
sabe ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.
Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.
Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.
Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio.
Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las.
Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.
*
Ana Cristina Cesar
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria rir, chorar,
ou pelo menos sorrir
com a mesma leveza com que
os ares me beijavam.
Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça,
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando.
Eu queria até mesmo
sabe ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.
Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.
Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.
Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio.
Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las.
Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.
*
Ana Cristina Cesar
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