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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Palavras aladas


Nathalie Daoust


Os juramentos que nos juramos
Entrelaçados naquela cama
Seriam traídos se lembrados hoje
Eram palavras aladas
Faladas não para ficar
Mas, encantadas, voar
Faziam parte das carícias
Que por lá sopramos
Brisas afrodisíacas ao pé do ouvido
Jamais contratos
Esqueçamo-las
Pois dentre os atos da língua
Houve outros mais convincentes
E ardentes sobre os lençóis
Que esses, em futuras noites,
Em vislumbres de lembranças
Sempre nos deslumbrem.

Antonio Cícero


domingo, 4 de novembro de 2012

Desejo

 Jacek Yerka

Só o desejo não passa
e só deseja o que passa
e passo meu tempo inteiro
a enfrentar um só problema
ao menos no meu poema
agarrar o passageiro.

Antonio Cícero

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Guardar


Guardar uma coisa não é escondê-la 
ou trancá-la. 
Em cofre não se guarda coisa alguma 
Em cofre perde-se a coisa à vista 
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, 
mirá-la por admirá-la, isto é, 
iluminá-la ou ser por ela iluminado 
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, 
fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, 
isto é, estar acordando por ela, isto é, 
estar por ela ou ser por ela.


Antônio Cícero

domingo, 24 de outubro de 2010

Água Perrier

Não quero mudar você
nem mostrar novos mundos
pois eu, meu amor, acho graça até mesmo em clichês

Adoro esse olhar blasé
que não só já viu quase tudo
mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver.

Só proponho
alimentar meu tédio.
Para tanto, exponho
a minha admiração.
Você em troca cede o
seu olhar sem sonhos
à minha contemplação:

Adoro, sei lá por que,
esse olhar
meio escudo
que em vez de meu álcool forte pede água Perrier

Antonio Cícero

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Sair

Largar o cobertor, a cama, 
o medo, o terço, o quarto, 
largar toda simbologia e religião;
largar o espírito, largar a alma, 
abrir a porta principal e sair. 
Esta é a única vida
e contém inimaginável
beleza e dor. 
Já o sol,
as cores da terra 
e o ar azul – o céu do dia –
mergulharam até a próxima aurora; 
a noite está radiante
e Deus não existe nem faz falta. 
Tudo é gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinitos que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.

Antonio Cicero. A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, 2002, p.77.