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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Samba Canção



Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha, 
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era comércio, avara, 
embora um pouco burra, 
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz...

Ana Cristina César

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Samba-Canção



Tantos poemas que perdi
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhado na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era uma estratégia),
fiz comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,
mas tantas, tantas fiz… 

Ana Cristina Cesar


quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Chove



A chuva cai.
Os telhados estão molhados,
Os pingos escorrem pelas vidraças.
O céu está branco,
O tempo está novo.
A cidade lavada.
A tarde entardece,
Sem o ciciar das cigarras,
Sem o jubilar dos pássaros,
Sem o sol, sem o céu.
Chove.
A chuva chove molhada,
No teto dos guarda-chuvas.
Chove.
A chuva chove ligeira,
Nos nossos olhos e molha.
O vento venta ventado,
Nos vidros que se embalançam,
Nas plantas que se desdobram.
Chove nas praias desertas,
Chove no mar que está cinza,
Chove no asfalto negro,
Chove nos corações.
Chove em cada alma,
Em cada refúgio chove;
E quando me olhaste em mim,
Com os olhos que me seguiam,
Enquanto a chuva caía
No meu coração chovia
A chuva do teu olhar.

Ana Cristina Cesar





segunda-feira, 1 de outubro de 2012





Me lembro de ficar super concentrada e morder a boca
e tentar acompanhar a sequência toda sem me perder nem um minuto.
Eu lia assim, com sotaque
"go, go, go, said the
bird,
human kind cannot bear
very much on reality..."

Eu procurava as chaves, a questão pendente
atravessava a luz deserta da praia de cabo a rabo, de vestido
voltava sobre os meus próprios passos, ficava na varanda
atravessava os dias como uma planta perdida no deserto
naquele sol mais quieta. “Aqui eu te conheço”.
Eu não sabia que sabia, aquela planta
a pauta se calasse... Ouvia: “se você dançar...”
Só de memória me espanto, de cabeça caio e saio, de cor, e pronto
socorram-me então nesse esforço de raízes
ouvindo a chuva nas telhas de menos dessa casa escura
com goteiras de verão e falta dágua, sem transporte
descendo a estrada de pó nas sandálias havaianas
fazendo uma bolha no calor, um lanho rubro, repetindo.
“Ana, na janela tem um recadinho”, chegando, lendo...
"Tive que correr para pegar o posto aberto" um curativo aberto, um sanduíche aberto, um fantasma romântico no peito
“se você dançar..."
Me lembro da rádio a mil dentro do carro,
e de uma saudade inata.

CESAR, Ana Cristina. Aí é que são elas. In: Inéditos e dispersos.

 

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Travelling

Tarde da noite recoloco a casa toda em seu lugar.
Guardo os papéis todos que sobraram.
Confirmo para mim a solidez dos cadeados.
Nunca mais te disse uma palavra.
Do alto da serra de Petrópolis,
com um chapéu de ponta e um regador,
Elizabeth reconfirmava, “Perder
é mais fácil que se pensa”.
Rasgo os papéis todos que sobraram.
“Os seus olhos pecam, mas seu corpo
não”,
dizia o tradutor preciso, simultâneo,
e suas mãos é que tremiam. ‘É perigoso”,
ria Carolina perita no papel Kodak.
A câmera em rasante viajava.
A voz em off nas montanhas, inextinguível
fogo domado da paixão, a voz
do espelho dos meus olhos,
negando-se a todas as viagens,
e a voz rascante da velocidade,
de todas três bebi um pouco.

Ana Cristina Cesar

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Nada, Esta Espuma




Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco 
quero tanto os seios da sereia. 


Ana Cristina Cesar

domingo, 13 de novembro de 2011

Tu Queres Sono: Despe-te dos Ruídos


Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono.

 Ana Cristina Cesar

domingo, 28 de agosto de 2011

Fisionomia


Não é mentira
é outra
a dor que dói
em mim
é um projeto
de passeio
em círculo
um malogro
do objeto
em foco
a intensidade
de luz
de tarde
no jardim
é outra
outra a dor que dói.

Ana Cristina Cesar

sábado, 23 de abril de 2011

Nestas circunstâncias o beija-flor vem sempre aos milhares


















Este é o quarto 
Augusto. 
Avisou que vinha. 
Lavei os sovacos e os pezinhos. 
Preparei o chá.
Caso ele me cheirasse... 
Ai que enjôo me dá o açúcar do desejo.

Ana Cristina Cesar






.

sábado, 9 de abril de 2011

Tu Queres Sono: Despe-te dos Ruídos

Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono
 
Ana Cristina Cesar

quarta-feira, 16 de março de 2011

Cabeceira

Intratável.
Não quero mais pôr poemas no papel
nem dar a conhecer minha ternura.
Faço ar de dura,
muito sóbria e dura,
não pergunto
"da sombra daquele beijo
que farei?"
É inútil
ficar à escuta
ou manobrar a lupa
da adivinhação.
Dito isto
o livro de cabeceira cai no chão.
Tua mão que desliza
distraidamente?
sobre a minha mão

Ana Cristina Cesar

quinta-feira, 10 de março de 2011

Noite de Natal

 
Noite de Natal.
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída
com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável para perto das
botas pretas
pudera


Ana Cristina Cesar

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Aventura na Casa Atarracada


Movido contraditoriamente
por desejo e ironia
não disse mas soltou,
numa noite fria,
aparentemente desalmado;
- Te pego lá na esquina,
na palpitação da jugular,
com soro de verdade e meia,
bem na veia, e cimento armado
para o primeiro a andar.

Ao que ela teria contestado, não,
desconversado, na beira do andaime
ainda a descoberto: - Eu também,
preciso de alguém que só me ame.
Pura preguiça, não se movia nem um passo.
Bem se sabe que ali ela não presta.
E ficaram assim, por mais de hora,
a tomar chá, quase na borda,
olhos nos olhos, e quase testa a testa.

Ana Cristina Cesar

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011



Esta
brisa
marinha
semimágica
que entra tão
sub-repticiamente
pela janela denuncia_
o que? ou liquefaz meus
suspiros, em mistério tátil e
tácito.--------------------------
Meu Deus, de novo a brisa a me
desalienar e desalinhar, despertando
o borbulhar que o ano inteirinho pressentiu.
--------------------------------------- Suspirosa
e oleosa, uma tonta. Sigo o rádio. Será que eu
fui engolida inteira? Faz de conta que a mi-
nha digestão é fácil, que as grandes partes se
derreteram já, que os ossos cuspidos estão ar-

rumados, insensíveis e ressecando ------- ----
-------- Ouvi dizer, li em algum lugar: Ana
é idiota. Se conspirassem contra mim, tal- vez
eu fosse. ----------------------A noite des-

pencou e quebrou três estrelas.

Ana Cristina César


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011


Opto pelo olhar estetizante, com epígrafe de mulher moderna desconhecida.("Não estou conseguindo explicar minha ternura, minha ternura, entende?") Não sou rato de biblioteca, não entendo quase aquele museu da praça, não tenho embalo de produção, não nasci para cigana, e também tenho o chamado olho com pecados. Nem aqui? Recito WW pra você: "Amor, isto não é um livro, sou eu, sou eu que você segura e sou eu que te seguro (é de noite? Estivemos juntos e sozinhos?), caio das páginas dos teus braços, teus dedos me entorpecem, teu hálito, te pulso, mergulho dos pés à cabeça, delícia, e chega-
Chega de saudade, segredo, impromptu, chega de presente deslizando, chega de passado em videoteipe impossivelmente veloz, repeat, repeat. Toma este beijo só pra você e não me esquece mais. Trabalhei o dia inteiro e agora me retiro, agora repouso minhas cartase traduções de muitas origens, me espera uma esfera mais real que a sonhada, mais direta, dardos à minha volta, Adeus!
Lembrei minhas palavras uma a uma. Eu poderei voltar. Te amo, e parto, eu incorpóreo, trunfante, morto.

Ana Cristina Cesar

domingo, 9 de janeiro de 2011

descuido não (concentração)
                    lembrar da caretice que você não gosta.
                    reaproveitar o casaquinho de banton.
                    quando você mal pensa que é novidade, não é.
                    Existe uma medida entre o descuido e a
                    premeditação — trata-se do cuidado (floating
                    attention). Daí escapam maps of England birds, pessoas seguindo numa certa direção,
                    bichos que vão virando gente, discretamente eróticos, desejando
                    mancha transparente e diluída de aquarela cor de rosa,
                    see?
                    Medida exata entre o acaso e a estrutura.
                    Aprender fazendo, baby.
                    começar pelas médias (daí para pequenas, depois para grandes)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Este livro


Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do
coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two
total, tilintar de verdade que você seduz,
charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a
carapuça.
E cante.
Puro açúcar branco e blue.


Ana Cristina Cesar

domingo, 13 de junho de 2010

Nada disfarça o apuro do amor


Um carro em ré. Memória de água em movimento. Beijo.
Gosto particular da tua boca. Último trem subindo ao
céu.
Aguço o ouvido.
Os aparelhos que só fazem som ocupam o lugar
clandestino da felicidade.
Preciso me atar ao velame com as próprias mãos.
Sirgar.
Daqui ao fundo do horto florestal ouço coisas que
nunca ouvi, pássaros que gemem.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Sou linda; quando no cinema você roça
o ombro em mim aquece, escorre, já não sei mais
quem desejo, que me assa viva, comendo
coalhada ou atenta ao buço deles, que ternura
inspira aquele gordo aqui, aquele outro ali, no
cinema é escuro e a tela não importa, só o lado,
o quente lateral, o mínimo pavio. A portadora deste
sabe onde me encontro até de olhos fechados;
falo pouco; encontre; esquina de Concentração com Difusão,
lado esquerdo de quem vem, jornal na mão, discreta.

Ana Cristina Cesar