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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Delírio



No parque morno, um perfumista oculto
ordenha heliotrópios...
Deixa aberta a janela...

Minhas mãos sabem de cor o teu corpo,
e a alcova é morna...
Apaguemos a luz...

Não sentes na tua boca
um gosto de papoulas?...

Passa o lenço de seda de tuas mãos
sobre minha fronte,
e não me digas nada:
a febre está, baixinho, ao meu ouvido,
falando de ti...

Guimarães Rosa

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Elegia

Rogerio Fernandes


Teu sorriso se abriu como uma anêmona
entre as covinhas do rosto infantil.
Estavas de pijama verde,
nas almofadas verdes,
os pezinhos nus, as pernas cruzadas,
pequenina,
como um ídolo de jade
que teve por modelo uma princesa anamita.
Tuas mãos sorriam,
teus olhos sorriam,
o liso dos teus cabelos pretos sorria,
e mesmo me sorriste,
e foi a única vez...

Não pude calçar, com beijos os teus pezinhos,
e não pudeste caminhar para mim...
Mas é bem assim que os meus sonhos se possuem.

João Guimarães Rosa

terça-feira, 13 de março de 2012

Tentativa


Michelle Teague

Manhã básica, alcalina,
neutralizando a gota ácida do sol.
O tornassol do céu, no fundo
do grande tubo de ensaio,
vai se espessando, cada vez mais azul.

Dos poços da marna alagada,
cheios, como frascos chatos sem gargalos,
sobem vapores alvacentos.
A pressão calca cinco atmosferas,
e o calor cresce,
nas alavancas de pirômetros negros,
dilatando as sombras.

Rápida,
uma revoada triangular de periquitos
estraleja e crepita,
flambada em alça enorme de platina,
como o fio de chama, fugidio e verde,
de um sal de boro...

Quanto esforço da manhã,
para riscar tão alto,
um corisco de esperança...

João Guimarães Rosa

sábado, 6 de agosto de 2011


 Dito dizia que o certo era a gente estar sempre brabo de alegre, alegre por dentro, mesmo com tudo de ruim que acontecesse, alegre nas profundas. Podia? Alegre era a gente viver devagarinho, miudinho, não se importando demais com coisa nenhuma.




João Guimarães Rosa. Campo geral. In: Ficção completa

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Consciência cósmica


Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do redemoinho da grande força,
que agira flui, feroz, dentro e fora de mim...

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem de deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...

Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
E deveria rir, se me restasse o riso,
das tormentas que pouparam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...


Guimarães Rosa

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Saudade de tudo

Werner Bishop

Saudade, essencial e orgânica,

...de horas passadas

que eu podia viver e não vivi!...

Saudade de gente que não conheço,

de amigos nascidos noutras terras,

de almas órfas e irmãs,

de minha gente dispersa,

que talvez ainha hoje espere por mim...



Saudade triste do passado,

saudade gloriosa do futuro,

saudade de todos os presentes

vividos fora de mim!...



Pressa!...

Ânsia voraz de me fazer em muitos,

fome angustiosa da fusão de tudo,

sede da volta final

da grande experiência:

uma só alma em um só corpo,

uma só alma-corpo,

um só,

um!...

Como quem fecha numa gota

o Oceano,

afogado no fundo de si mesmo...


João Guimarães Rosa


sábado, 8 de maio de 2010

Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago - foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na
minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo, que quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso me serviu de bom consolo. E eu
nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ía.

João Guimarães Rosa
Em "Grande sertão: Veredas"
Tivesse medo? O mundo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo um vivente medroso, um menino tremor, todos perigam - o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu - o que quero e sobrequero - é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim!

João Guimarães Rosa
Em "Grande sertão: Veredas"
Aquilo nem era só mata, era até florestas! Montamos direito, no Olho-d'Água-das-Outras, andamos, e demos com a primeira vereda - dividindo as chapadas - : o flaflo de vento agarrado nos buritis, franzido no gradeal de duas folhas altas; e, sassafrazal - como o da alfazema, um cheiro que refresca; e aguadas que molham sempre. Vento que vem de toda parte. Dando no meu corpo, aquele ar me falou em gritos de liberdade. Mas liberdade - aposto - ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro e grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina:o beco para a liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é cousa terrível?
Lengalenga. Fomos, fomos.

João Guimarães Rosa em "Grande sertão: Veredas"

domingo, 25 de abril de 2010

...E ter tempo para ir se lembrando devagarinho das melhores horas, consumindo. Avante e volta, gostava de galopar no campo, o galope, o galope.

Assim, queria já ter vivido muito mais, senhor aproveitado de muitos rebatidos anos, para poder ter maior assunto em que se reconhecer e entender. A um modo, quando descobria, de repente, alguma coisa nova importante, às vezes ele prezava, no fundo de sua ideia, que estava só se recordando daquilo, já sabido há muito tempo, muito tempo sem lugar nem data, e mesmo mais completo do que agora estivesse aprendendo.

João Guimarães Rosa - A Estória de Lélio e Lina

domingo, 10 de janeiro de 2010

Unissoou. Amor renhido, amor crescido. Cousa grande! Vocês dois são o que-não-sei: o tudo, a persistência da lua, apesar das cidades. Umbigo - centro, centro, centro. Umbigo - medida ideal. Havei forte amor! O amor não precisa de memória, não arredonda, não floreia: faz forte estilo. E fim.


João Guimarães Rosa in Ave Palavra

sábado, 17 de outubro de 2009

Grande Sertão: Veredas

Revirei meu fraseado. Quis falar em coração fiel e sentidas coisas. Poetagem. Mas era o que eu sincero queria - como em fala de livros, o senhor sabe: de bel-ver, bel-fazer e bel-amar. O que uma mocinha assim governa, sem precisão de armas e golpes, guardada macia e fina em sua casa- grande, sorrindo santinha no alto da alpendra... E ela queria saber tudo de mim, mais ainda me perguntava. - "Donde é mesmo que o senhor é, donde?" Se sorria. E eu não medi meus alforjes".

João Guimarães Rosa

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Sempre que se começa a ter amor a alguém,
no ramerrão,
o amor pega e cresce é porque, de certo jeito,
a gente quer que isso seja,
e vai, na ideia,
querendo e ajudando,
mas quando é destino dado,
maior que o miúdo,
a gente ama inteiriço fatal,
carecendo de querer,
e é um só facear com as surpresas.
Amor desse,
cresce primeiro;
brotar é depois.

Guimarães Rosa

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco.
Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens.

João Guimarães Rosa