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quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Conversa de poeta



- Estado de atenção:
No meio de um pensamento poético.

- Cor preferida:
Aquela que fazem as crianças.

- Onde mora:
Ainda tentando entender.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Entre seus cabelos ou 0.7


Dizem que é o amor que dá luz à lua
Realça a cobertura do sol
Corrige a sintaxe do verso.

Mentira dos poetas.

O amor é a drástica inversão da razão.

Se há algum lugar onde morar,
Não me convide para um café da manhã em plutão.

Eu quero estar
É entre seus cabelos.
Me dê seus fios
Para adornar minha força.

O mundo se enfrenta no firmamento de sua cabeça.
Lá imagino a vida de um casal
Infinitamente belo
Infinitamente firme
Infinitamente apaixonados um pelo outro.

sábado, 19 de outubro de 2013

Filosofia da práxis


O Mestre, o Revolucionário ou o Devoto

Varre todos os dias sua casa e seu trabalho,

Mais pela prática humilde do que pelo necessário asseio.


Para o Mestre, o Revolucionário ou o Devoto

A humanidade é sua lição cotidiana

Sua bandeira de luta

Seu guia de preces.


O Mestre, o Revolucionário ou o Devoto

Está sempre ao lado de um amigo contra a ignorância do ato

A injustiça do poder

A vilania dos corações cercados de sombra.

Tem coragem de levantar sua voz, seu corpo, sua alma.

Porque no Mestre, no Revolucionário e no Devoto

Sua mão é como sua palavra.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Palavras aladas


Nathalie Daoust


Os juramentos que nos juramos
Entrelaçados naquela cama
Seriam traídos se lembrados hoje
Eram palavras aladas
Faladas não para ficar
Mas, encantadas, voar
Faziam parte das carícias
Que por lá sopramos
Brisas afrodisíacas ao pé do ouvido
Jamais contratos
Esqueçamo-las
Pois dentre os atos da língua
Houve outros mais convincentes
E ardentes sobre os lençóis
Que esses, em futuras noites,
Em vislumbres de lembranças
Sempre nos deslumbrem.

Antonio Cícero


domingo, 31 de março de 2013

Para Além da Curva da Estrada



Para além da curva da estrada
Talvez haja um poço, e talvez um castelo,
E talvez apenas a continuação da estrada.
Não sei nem pergunto.
Enquanto vou na estrada antes da curva
Só olho para a estrada antes da curva,
Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.
De nada me serviria estar olhando para outro lado
E para aquilo que não vejo.
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.
Se há alguém para além da curva da estrada,
Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.
Essa é que é a estrada para eles.
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.
Por ora só sabemos que lá não estamos.
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva
Há a estrada sem curva nenhuma. 


 Alberto Caeiro

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Ao linotipista

 


Desculpe eu estar errando tanto na máquina. Primeiro é porque minha mão

direita foi queimada. Segundo, não sei por quê.

Agora um pedido: não me corrija. A pontuação é a respiração da frase, e minha

frase respira assim. E se você me achar esquisita, respeite também. Até eu fui obrigada a

me respeitar.

Escrever é uma maldição.

Clarice Lispector


terça-feira, 11 de setembro de 2012

Elegia

Rogerio Fernandes


Teu sorriso se abriu como uma anêmona
entre as covinhas do rosto infantil.
Estavas de pijama verde,
nas almofadas verdes,
os pezinhos nus, as pernas cruzadas,
pequenina,
como um ídolo de jade
que teve por modelo uma princesa anamita.
Tuas mãos sorriam,
teus olhos sorriam,
o liso dos teus cabelos pretos sorria,
e mesmo me sorriste,
e foi a única vez...

Não pude calçar, com beijos os teus pezinhos,
e não pudeste caminhar para mim...
Mas é bem assim que os meus sonhos se possuem.

João Guimarães Rosa

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Fundo do Mar

Rafael de Penedos
No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.



Sophia de Mello Breyner

sábado, 18 de agosto de 2012




Não tenho feito muitos amigos (salvo uma enfermeira da maternidade que gostou de mim e depois de quase oito meses de Paulinho nascido vem me visitar na folga — hoje toma chá comigo), e não tenho influenciado nenhuma pessoa. Tomo menos milk-shake e levo uma vida diária vazia e agitada. Passo o tempo todo pensando — não raciocinando, não meditando — mas pensando, pensando sem parar. E aprendendo, não sei o que, mas aprendendo. E com a alma mais sossegada (não estou totalmente certa). Sempre quis “jogar alto”, mas parece que estou aprendendo que o jogo alto está numa vida diária pequena, em que uma pessoa se arrisca muito mais profundamente, com ameaças maiores. Com tudo isso, parece que estou perdendo um sentimento de grandeza que não veio nunca de livros nem de influência de pessoas, uma coisa muito minha e que desde pequena deu a tudo, aos meus olhos, uma verdade que não vejo mais com tanta frequência. Disso tudo, restam nervos muito sensíveis e uma predisposição séria para ficar calada. Mas aceito tanto agora. Nem sempre pacificamente, mas a atitude é de aceitar.
.
Clarice Lispector, em: Correspondências.
Carta enviada a Fernando Sabino,
05 de outubro de 1953.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Nuevo Canal Interoceánico

Dorothy Lathrop
Te propongo construir
un nuevo canal
sin esclusas
... ni excusas
que comunique por fin
tu mirada
atlántica
con mi natural
pacífico.

Mario Benedetti

sexta-feira, 22 de junho de 2012


Evan B. Harris

Depois de algum tempo,
aprende-se a subtil diferença
entre tomar uma mão
e aprisionar uma alma,
e aprende-se
que o amor não significa deitar-se
e uma companhia não significa segurança
e começamos a aprender…
Que os beijos não são contratos
e os presentes não são promessas
e começamos a aceitar as nossas derrotas
de cabeça erguida e de olhos abertos
e aprendemos a construir
os nossos caminhos no hoje,
porque o terreno do amanhã
é demasiado inseguro para planos…
e os futuros ficam-se pela metade.
E depois de algum tempo
aprende-se que se for de mais
até o calorzito do sol queima.
Daí que plantemos o nosso próprio jardim
e decoremos a própria alma,
em vez de esperar que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,
que realmente somos fortes,
que valemos realmente,
e aprendemos, aprendemos…
e com cada dia aprendemos.



Jorge Luís Borges

sábado, 5 de maio de 2012

Meu barro


Sofro de lonjuras.
Insisto em buscar o amor atrás do morro.
meu pai bem me disse:
o tamanho do buraco do peito
é a medida dos enlaçamentos.
Tudo começa no berço.
No colo da mão carinhosa
que cavuca na infância o jardim.
Se as panelas são quentes e fartas
Conte que haverá festa

Mesmo para a vida dura.


terça-feira, 24 de abril de 2012

Ex/plicação




Não há um sentido único
num
poema

quando alguém
começa a ex-
plicá-lo e
chega ao fim
en-
tão só fica o
ex
do ponto de
partida

beco

(tente outra
vez)

sem saída

Haroldo de Campos

domingo, 18 de março de 2012

Fracasso do parquinho


Meu coração fez o caminho inverso:
não tocou o encantamento quando menino:
brincava de nuvem.
Nada era suficientemente azul
Nem etílico e nem metálico
que fosse servido na festa.
Antropofágico de si não fez pontes,
 ao invés,
esculpiu segredos. 

Remoto, enfrenta uma janela emperrada.
Também esta fruta, por exemplo, que permanece no ramo.
Avisa aos eremitas que não adianta descer a barra do vestido.
Pelo contrário, é preciso,
com preguiça e com pressa,
dedicar-se ao império extinto

(ao menos nas primeiras horas do dia. 
a noite também é propício, 
mas desde que se esteja acordado).

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Balada do Amor Perfeito


Lola Roig
Pelo pés das goiabeiras,
pelo braços das mangueiras,
pelas ervas fratricidas,
pelas pimentas ardidas,
fui me aflorando.

Pelos girassóis que comem
giestas de sol e somem,
por marias-sem-vergonha,
dos entretons de quem sonha
fui te aspirando.

Por surpresas balsaminas,
entre as ferrugens de Minas,
por tantas voltas lunárias,
tantas manhãs cineárias,
fui te esperando.

Por miosótis lacustres,
por teus cântaros ilustres,
pelos súbitos espantos
de teus olhos agapantos,
fui te encontrando.

Pelas estampas arcanas
do amor das flores humanas,
pelas legendas candentes
que trazemos nas sementes,
fui te avivando.

Me evadindo das molduras,
de minhas albas escuras,
pelas tuas sensitivas,
açucenas, sempre-vivas,
fui te virando.

Pela rosa e o resedá,
pelo trevo que não há,
pela torta linha reta
da cravina do poeta,
fui te levando.

Pelas frestas das lianas
de tuas crespas pestanas,
pela trança rebelada
sobre o paredão do nada,
fui te enredando.

Pelas braçadas de malvas,
pelas assembléias alvas
de teus dentes comovidos
pelo caule dos gemidos
fui te enflorando.

Pelas fímbrias de teu húmus,
pelos reclames dos sumos,
sobre as umbelas pequenas
de tuas tensas verbenas,
fui me plantando.

Por tuas arestas góticas,
pelas orquídeas eróticas,
por tuas hastes ossudas,
pelas ânforas carnudas,
fui te escalando.

Por teus pistilos eretos,
por teus acúleos secretos,
pelas úsneas clandestinas
das virilhas de boninas,
fui me criando.

Pelos favores mordentes
das ogivas redolentes,
pelo sereno das zínias,
pelos lábios de glicínias,
fui te sugando.

Pelas tardes de perfil,
pelos pasmados de abril,
pelos parques do que somos,
com seus bruscos cinamomos,
fui me espaçando.

Pelas violas do fim,
nas esquinas do jasmim,
pela chama dos encantos
de fugazes amarantos,
fui me apagando.

Afetando ares e mares
pelas mimosas vulgares
pelos fungos do meu mal,
do teu reino vegetal
fui me afastando.

Pelas gloxínias vivazes,
com seus labelos vorazes,
pelo flor que desata,
pela lélia purpurata,
fui me arrastando.

Pelas papoulas da cama,
que vão fumando quem ama,
pelas dúvidas rasteiras
de volúveis trepadeiras
fui te deixando.

Pelas brenhas, pelas damas
de uma noite, pelos dramas
das raízes retorcidas,
pelas sultanas cuspidas,
fui te olvidando.

Pelas atonalidades
das perpétuas, das saudades,
pelos goivos do meu peito,
pela luz do amor perfeito,
vou te buscando.

Paulo Mendes Campos