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quarta-feira, 31 de julho de 2013

Canção


O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano —
sai para fora do coração
ardendo de pureza —
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor —
esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor
— não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contido
quando negado:
o peso é demasiado
— deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro da carne,
a pele treme na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho —
sim, sim,
é isso o que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar ao corpo
em que nasci.

Aleen Ginsberg, em: Uivo e outros poemas


quinta-feira, 16 de maio de 2013

Borrar azul ou 0.3




Parece tolo convocar palavras para te explicar
o porque você é minha casa.
Talvez fosse mais certo simplesmente
manchar o lençol de azul
ou
mais belo
plantar um jardim em seus sapatos.
Mas sou
apenas um poeta menor.
Escrevo verso sem perícia e com sal.
Ao invés de imagens,
Dou o verbo.
Somos,
do mais ao acaso,
Corpo que pulsa.
Corpo que tem fome.
Corpo que se extingue.
Giroscópio universo- inter-atômico.
Diante dessa nuvem,
portanto,
nossa cosmoconsistência
Guarda-se
Realiza-se
Extrapola-se
apenas com a mão do outro.
Ser contigo é borrar de azul.
(Voltei à imagem,
pois há tantos que nenhuma palavra alcança
- berçário de estrelas perto do olho do Hubble -
bonita a imagem)
Aqui, no lar de suas escápulas,
mesmo sem ar
- quase uma versão abusada do sem medo do dar -
morar.
Assim, Ser Azul.
Alumiar azul,
entende? 
Torna-se claramente azul.
Amar.
Quando isso acontece,
encontrou sua casa.

domingo, 10 de março de 2013

Que País É Este?




Tracy Emin


1
Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.

Uma coisa é um país,
outra um regimento.

Uma coisa é um país,
outra o confinamento.

Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno "Avante"
— e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um "berço esplêndido" para um "futuro radioso"
e éramos maiores em tudo
— discursando rios e pretensão.

Uma coisa é um país,
outra um fingimento.

Uma coisa é um país,
outra um monumento.

Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.

(...)

2

Há 500 anos caçamos índios e operários,
há 500 anos queimamos árvores e hereges,
há 500 anos estupramos livros e mulheres,
há 500 anos sugamos negras e aluguéis.

Há 500 anos dizemos:
que o futuro a Deus pertence,
que Deus nasceu na Bahia,
que São Jorge é que é guerreiro,
que do amanhã ninguém sabe,
que conosco ninguém pode,
que quem não pode sacode.

Há 500 anos somos pretos de alma branca,
não somos nada violentos,
quem espera sempre alcança
e quem não chora não mama
ou quem tem padrinho vivo
não morre nunca pagão.

Há 500 anos propalamos:
este é o país do futuro,
antes tarde do que nunca,
mais vale quem Deus ajuda
e a Europa ainda se curva.

Há 500 anos
somos raposas verdes
colhendo uvas com os olhos,

semeamos promessa e vento
com tempestades na boca,

sonhamos a paz da Suécia
com suíças militares,

vendemos siris na estrada
e papagaios em Haia,

senzalamos casas-grandes
e sobradamos mocambos,

bebemos cachaça e brahma
joaquim silvério e derrama,

a polícia nos dispersa
e o futebol nos conclama,

cantamos salve-rainhas
e salve-se quem puder,

pois Jesus Cristo nos mata
num carnaval de mulatas.

(...)


Publicado no livro Que país é este? e outros poemas (1980).

In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 198


sexta-feira, 8 de abril de 2011


tracy emin



Há vários modos de matar um homem:
com o tiro, a fome, a espada
ou com a palavra
– envenenada.
.
Não é preciso força.
Basta que a boca solte
a frase engatilhada
e o outro morre
– na sintaxe da emboscada.


Affonso Romano De Sant'anna

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Tracey Emin


Gigante descansa depois da refeição.
Sequestrou bem rápido a retina da nova mulher que de início esperneou,
mas logo soube divisar a maré das horas inevitáveis e profundas.
No exílio foi possível trocar de calendário, de calcinha e abdômen.
Soberbo, ela não chorou.
Só trouxe suas coisas aos bocados e se instalou no meu armário e ossos.
Trocou o cheiro dos meus sabonetes.

Pela manhã não espera que eu a lamba. Já conta sonhos estranhos.
Desenha minhas narinas do gosto acre de seu hálito vespertino.
Sugere aos meus ouvidos devaneios caramelizados de suas horas de escuridão.
E suas mãos sempre frias nas minhas,
nossas mãos incrivelmente nuas e inocentes agora cativas dessa nova vida.
Inteiras e reféns
E cálice
Onde sou gigante.