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terça-feira, 20 de novembro de 2012

O sal da língua




Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar,
para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.
 Eugênio de Andrade

terça-feira, 17 de julho de 2012

O amor é síntese




Por favor, não me analise
Não fique procurando cada ponto fraco meu.
Se ninguém resiste a uma análise profunda,
Quanto mais eu...

Ciumento, exigente, inseguro, carente
Todo cheio de marcas que a vida deixou
Vejo em cada grito de exigência
Um pedido de carência, um pedido de amor.

Amor é síntese
É uma integração de dados
Não há que tirar nem pôr
Não me corte em fatias
Ninguém consegue abraçar um pedaço
Me envolva todo em seus braços
E eu serei o perfeito amor.

Mario Quintana

terça-feira, 27 de março de 2012

A mulher-esqueleto


Ela havia feito alguma coisa que seu pai não aprovava, embora ninguém mais
se lembrasse do que havia sido. Seu pai, no entanto, a havia arrastado até os
penhascos, atirando-a ao mar. Lá, os peixes devoraram sua carne e arrancaram seus
olhos. Enquanto jazia no fundo do mar, seu esqueleto rolou muitas vezes com as
correntes.
Um dia um pescador veio pescar. Bem, na verdade, em outros tempos muitos
costumavam vir a essa baía pescar. Esse pescador, porém, estava afastado da sua
colônia e não sabia que os pescadores da região não trabalhavam ali sob a alegação de
que a enseada era mal-assombrada.
O anzol do pescador foi descendo pela água abaixo e se prendeu — logo em
quê! — nos ossos das costelas da Mulher-esqueleto. O pescador pensou: "Oba, agora
peguei um grande de verdade! Agora peguei um mesmo!" Na sua imaginação, ele já
via quantas pessoas esse peixe enorme iria alimentar, quanto tempo sua carne
duraria, quanto tempo ele se veria livre da obrigação de pescar. E enquanto ele lutava
com esse enorme peso na ponta do anzol, o mar se encapelou com uma espuma
agitada, e o caiaque empinava e sacudia porque aquela que estava lá embaixo lutava
para se soltar. E quanto mais ela lutava, tanto mais ela se enredava na linha. Não
importa o que fizesse, ela estava sendo inexoravelmente arrastada para a superfície,
puxada pelos ossos das próprias costelas.
O pescador havia se voltado para recolher a rede e, por isso, não viu a cabeça
calva surgir acima das ondas; não viu os pequenos corais que brilhavam nas órbitas
do crânio; não viu os crustáceos nos velhos dentes de marfim. Quando ele se voltou
com a rede nas mãos, o esqueleto inteiro, no estado em que estava, já havia chegado à
superfície e caía suspenso da extremidade do caiaque pelos dentes incisivos.
— Agh! — gritou o homem, e seu coração afundou até os joelhos, seus olhos se
esconderam apavorados no fundo da cabeça e suas orelhas arderam num vermelho
forte. — Agh! — berrou ele, soltando-a da proa com o remo e começando a remar
loucamente na direção da terra. Sem perceber que ela estava emaranhada na sua
linha, ele ficou ainda mais assustado pois ela parecia estar em pé, a persegui-lo o
tempo todo até a praia. Não importava de que jeito ele desviasse o caiaque, ela
continuava ali atrás. Sua respiração formava nuvens de vapor sobre a água, e seus
braços se agitavam como se quisessem agarrá-lo para levá-lo para as profundezas.
— Aaagggggghhhh! — uivava ele, quando o caiaque encalhou na praia. De um
salto ele estava fora da embarcação e saía correndo agarrado à vara de pescar. E o
cadáver branco da Mulher-esqueleto, ainda preso à linha de pescar, vinha aos
solavancos bem atrás dele. Ele correu pelas pedras, e ela o acompanhou. Ele
atravessou a tundra gelada, e ela não se distanciou. Ele passou por cima da carne que
havia deixado a secar, rachando-a em pedaços com as passadas dos seus
mukluks.
O tempo todo ela continuou atrás dele, na verdade até pegou um pedaço do
peixe congelado enquanto era arrastada. E logo começou a comer, porque há muito,
muito tempo não se saciava. Finalmente, o homem chegou ao seu iglu, enfiou-se
direto no túnel e, de quatro, engatinhou de qualquer jeito para dentro. Ofegante e
soluçante, ele ficou ali deitado no escuro, com o coração parecendo um tambor, um
tambor enorme. Afinal, estava seguro, ah, tão seguro, é, seguro, graças aos deuses,
Raven, é, graças a Raven, é, e também à todo-generosa Sedna, em segurança, afinal.
Imaginem quando ele acendeu sua lamparina de óleo de baleia, ali estava ela
— aquilo — jogada num monte no chão de neve, com um calcanhar sobre um ombro,
um joelho preso nas costelas, um pé por cima do cotovelo. Mais tarde ele não saberia
dizer o que realmente aconteceu. Talvez a luz tivesse suavizado suas feições; talvez
fosse o fato de ele ser um homem solitário. Mas sua respiração ganhou um quê de
delicadeza, bem devagar ele estendeu as mãos encardidas e, falando baixinho como a
mãe fala com o filho, começou a soltá-la da linha de pescar.
— Oh, na, na, na. — Ele primeiro soltou os dedos dos pés, depois os tornozelos.
— Oh, na, na, na. — Trabalhou sem parar noite adentro, até cobri-la de peles para
aquecê-la, já que os ossos da Mulher-esqueleto eram iguaizinhos aos de um ser
humano.
Ele procurou sua pederneira na bainha de couro e usou um pouco do próprio
cabelo para acender mais um foguinho. Ficou olhando para ela de vez em quando
enquanto passava óleo na preciosa madeira da sua vara de pescar e enrolava
novamente sua linha de seda. E ela, no meio das peles, não pronunciava palavra —
não tinha coragem — para que o caçador não a levasse lá para fora e a jogasse lá
embaixo nas pedras, quebrando totalmente seus ossos.
O homem começou a sentir sono, enfiou-se nas peles de dormir e logo estava
sonhando. Às vezes, quando os seres humanos dormem, acontece de uma lágrima
escapar do olho de quem sonha. Nunca sabemos que tipo de sonho provoca isso, mas
sabemos que ou é um sonho de tristeza ou de anseio. E foi isso o que aconteceu com o
homem.
A Mulher-esqueleto viu o brilho da lágrima à luz do fogo, e de repente ela
sentiu uma sede daquelas. Ela se aproximou do homem que dormia, rangendo e
retinindo, e pôs a boca junto à lágrima. Aquela única lágrima foi como um rio, que ela
bebeu, bebeu e bebeu até saciar sua sede de tantos anos.
Enquanto estava deitada ao seu lado, ela estendeu a mão para dentro do
homem que dormia e retirou seu coração, aquele tambor forte. Sentou-se e começou
a batucar dos dois lados do coração:
Bom, Bomm!... Bom, Bomm!



Enquanto marcava o ritmo, ela começou a cantar em voz alta.
— Carne, carne, carne! Carne, carne, carne! — E quanto mais cantava, mais seu
corpo se revestia de carne. Ela cantou para ter cabelo, olhos saudáveis e mãos boas e
gordas. Ela cantou para ter a divisão entre as pernas e seios compridos o suficiente
para se enrolarem e dar calor, e todas as coisas de que as mulheres precisam.
Quando estava pronta, ela também cantou para despir o homem que dormia e
se enfiou na cama com ele, a pele de um tocando a do outro. Ela devolveu o grande
tambor, o coração, ao corpo dele, e foi assim que acordaram, abraçados um ao outro,
enredados da noite juntos, agora de outro jeito, de um jeito bom e duradouro.

As pessoas que não conseguem se lembrar de como aconteceu sua primeira
desgraça dizem que ela e o pescador foram embora e sempre foram bem alimentados
pelas criaturas que ela conheceu na sua vida debaixo d'água. As pessoas garantem
que é verdade e que é só isso o que sabem.


Clarissa Pinkola Estes, Em Mulheres que correm com os lobos

quarta-feira, 7 de março de 2012

Amor - Vida



Vivi entre os homens
Que não me viram, não me ouviram
Nem me consolaram.
Eu fui o poeta que distribui seus dons
E que não recebe coisa alguma.
Fui envolvido na tempestade do amor,
Tive que amar até antes do meu nascimento.
Amor, palavra que funda e consome os seres.
Fogo, fogo do inferno: melhor que o céu.

Murilo Mendes

segunda-feira, 25 de julho de 2011

A beirada da casa


Por que as mulheres são cheias de cores?
Por que as mulheres são cheias de dores?
Por que as mulheres são cheias de flores?
Por que as mulheres são mães?
Por que as mulheres insistem?
Por que as mulheres reúnem?
Por que existem tantas mulheres e apenas a mulher?
Por que algumas mulheres estão tão longe?
Por que as mulheres fazem vento?
Por que as mulheres são românticas?
Por que as mulheres são falsas?
Por que não são o tempo verbal, as mulheres?
Por que as mulheres vão? E por que ficam?
Por que as mulheres tem língua?
Por que beijam, lambem e chupam, as mulheres?
Por que as mulheres aceitam?
Por que as mulheres têm medo?
Por que as mulheres são ácidas?
Por que as mulheres são naufrago?
Por que as mulheres são o lugar?

sexta-feira, 22 de julho de 2011

A boca da noite



O que não fiz ficou vivo
pelo avesso. O que não tive
pertence à dor do meu canto.
A estrela que mais amei
acende o meu desencanto.
Vinagre? Sombra de vinho?
De noite, a vida engoliu
(é doce a boca da noite)
as dores do meu caminho.
O meu voo se apazigua
quando a tormenta me abraça.
O que tenho se enriquece
de tudo que não retive.
Diamante? Flor de carvão.

Thiago de Mello

sábado, 9 de abril de 2011

Tu Queres Sono: Despe-te dos Ruídos

Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono
 
Ana Cristina Cesar

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Alumbramento

Eu vi os céus! Eu vi os céus!
Oh, essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!

Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela...e sinto-a pura.

Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizações da bruma
A amortalhar, a cintilar!

Eu vi o mar! Lírios de espuma
Vinham desabrochar à flor
Da água que o vento desapruma....


Eu vi a estrela do pastor...
Vi a licorne alvinitente!...
Vi...vi o rastro do senhor!...

E vi a via láctea ardente...
Vi comunhões...capelas...véus...
Súbito...alucinadamente...

Vi carros triunfais...troféus...
Pérolas grandes como a lua...
Eu vi os céus! Eu vi os céus!

– Eu vi-a nua...toda nua!

Manuel Bandeira

terça-feira, 6 de abril de 2010

O fundo da humanidade suspende sobre as coxas de uma mulher
e os olhos de um homem
a necessidade absoluta do amor.

Guardado em plexos torácicos,
é o mesmo para todos, desde os tempos dos tempos.
Um toque interósseo de misterioso encontro.

Caso não houvesse...
a mesma ladeira,
beijos silenciosos estalados
passos em direção...
os braços não dobrariam a cintura do imponderável.

Que delicada existência que transgride,
cevar-se em tempo certo.

Nunca é noite suficiente para dormir
Quando viver chove grande em nós.

domingo, 8 de novembro de 2009

Da mesma forma que o acaso gera variabilidade
Quem sabe ao acaso a gente talvez se esbarre
e eu aprenda uma combinação diversa de querer.
Ai quiçá dance entre seus tornozelos novamente.
O jeito do seu querer, me dói.
Não posso.
O jeito do meu querer, não queres .
Então, deixemos o acaso querer por nós.