Mostrando postagens com marcador Amigos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Amigos. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O caroço e a andorinha: Uma história infantil para usar o dicionário…


Acéfalo abstraído do absurdo
Acabrunhado em sua casca,
em pouca polpa envolvido.
Acaule acautelado,
Permaneceu no chão escondido:
_O caroço!
Ouviu dizer de um moço:
_ Nem todo caroço que cai na terra vinga!
Berrou o caroço:
_Eu vim, eu vingo!
Açambarcando todo o terreno.
Ia crescendo o caroço,
sem caule nem raiz.
continuava sempre….
caroço!
Era duro feito osso,
Acastanhado liso
Sem destino e sem juízo
Era acatado, respeitoso
O gigantesco caroço
de acelerado crescimento
era já um monumento,
agora mais duro que cimento!
Colossal caroço tornou-se uma ameaça
Dia a dia ele crescia
Acolá, a cidade era engolida
Era prédio, casa e avenida
Para tanta aberração
Ninguém tinha explicação
Botânicos vinham do mundo inteiro
Gastavam tempo e dinheiro
Chamou-se pois, um batalhão.
Era preciso conter essa expansão.
_Uma explosão! Disse o capitão.
Mil megatons e um caroço que continuava caroço.
A cidade assustada
não conseguia pensar em mais nada.
Chegou então, o verão
Vieram com ele as aves de arribação:
As pequeninas andorinhas em peregrinação
Feito o caroço, um mistério!
Tomavam o que restava da cidade
Em toda parte uma andorinha
Aos milhares iam e vinham
Atrás de suculentos insetos incertos
Desprevenida , certa andorinha perseguia o seu almoço:
_Um gafanhoto gordo.
No ar ele fez um giro
desviando-se do caroço.
A andorinha, coitada!
Chocou-se de bico com o colossal caroço
A Potente pontiaguda córnea proeminência
Rachou sem ponderar a sua excelência:
_O caroço.
Frutas de todo tipo saíram do Colosso
Atemóia, manga, cajá
Maracujá, caju, melancia
Banana, morango, maçã…
Alimento de sobra pra homem e pra pássaro.
Fartando a todos sem desembaraço.
O que restou do caroço gritou:
_ Vinguei!



terça-feira, 20 de março de 2012

Jabuticabinhas



Quando chego em casa me ajoelho
Fico ali na altura do beijo
Meninos coloridos
Beijos coloridos
Olhos coloridos
Como jabuticabinhas
Todas com a mesma cor
Mas cada uma com uma alegria
Reflexos de almas que eu amo
Me chamam de pai
E eu, ai, me jogo neles
Me fazem lembrar de tudo que há de bom
Me libertam
Me completam
Se empoleiram em mim
E caímos todos
Felizes
Morrendo de rir
E depois pro violão
É tarde: só mais uma canção...

Julião




quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Olho do poeta



Somente só
Somente só serei alguém
Alguém que vá alem
Alem das vontades
Alem das vaidades
Alem dos deslumbres
E dos males que trazem

Só 
Somente só
Somente só vou aprender
A olhar e realmente ver
Que os contornos do belo
Podem deixar cego
E os olhos da alma
São o que ha de sincero

Gualter



domingo, 4 de abril de 2010


Ator no olhar
Abstrato na boca
Rugas rubras a marcar
Minha fisionomia transloca

Se minha verdade não posso ter
Tu também não terás
Assumo a culpa por assim dizer
Pois alem de criatura voraz
A mentira como a verdade
Não existe mais

Meu discurso completa o que eu ressentia
Existe chave para abrir essa poesia

O que a fecha
Não se vê hoje em dia

G.


quarta-feira, 31 de março de 2010

Luiz Humberto
No rol da vida,
Camisas, Vestidos, Toalhas de mesa, Lençóis.
Suor do trabalho,
perfume da festa,
nódoas do cotidiano,
manchas da noite.
Sabão. Escova.
Esfregar, esfregar.
Clarear.
Torcer, torcer.
Estender.
Secar.
Leves velas abertas ao vento.

Maria




domingo, 20 de dezembro de 2009

Uma furtiva lágrima

O mar insensivelmente azul engolindo-o
O sol ardentemente vermelho marcando-o
A terra secamente laranja cortando-o
O ar friamente cinza invadindo-o
O mundo assustadoramente belo
O mundo maravilhosamente estranho
Um muro e a casa do vizinho
O homem bem velhinho que cultivava goiabas
Ali no alto, senhor de tão magnífica paisagem
Sentei-me e chorei


A mulher languidamente sedutora
O irmão estendendo a mão
O pai olhando em silêncio
A mãe falando incessantemente
As pessoas me dizendo e eu nada entendendo
Um muro e a casa do vizinho
O homem bem velhinho que falava com as plantas e insetos
Ali no alto, amando em silêncio
Sentei-me e chorei


A cidade tão incrivelmente iluminada
A movimentada avenida
O estádio lotado

O prédio prateado sem fim de tão alto
As construções mirabolantes na cidade ruidosa
A miséria e a fome ao redor
Um muro e a casa do vizinho
O homem bem velhinho que reparava sua cerca e alimentava o vira-lata
[da rua]
Sentado no muro eu consertava o mundo e chorava


O corpo ardendo em febre
O ouvido doendo de tanto escutar
O nariz conflitadamente entupido
Os músculos irritadamente doloridos
Na pele as marcas da sobrevivência de um ser vivo
Um muro e a casa do vizinho
O homem bem velhinho que cuidava de sua doente esposa
No alto do muro eu inventava medicinas e chorava


Num belo dia de outono

Os passarinhos cantavam timidamente
E o sol acariciava com delicadeza a tez
Nesse dia comumente singelo
Decidi não apenas sentar-me no muro
Queria ficar mais alto, conhecer mais, fazer mais

Foi quando escorreguei
Caí, o joelho sangrou, eu acordei
Estava do outro lado do muro
E o vizinho homem bem velhinho
Ajudou-me a cuidar da ferida
Ele me disse com amor: a gente levanta para cair de novo.
Deu-me um beijo e uma goiaba
Contou-me que sua mulher chamava-se Maria e há anos não mais falava
Contou-me que em idos tempos adorava sentar-se naquele muro e
[sonhar]
Depois me disse com olhar profundo: já sabes o segredo
“Nada é melhor do que sonhar”
Choramos juntos e nos abraçamos.


No dia seguinte
Sentei-me no muro, olhei tudo o que já havia visto antes
Dominei a beleza do mundo
Inventei medicinas
Amei as mais belas mulheres
Liderei os homens na luta por um mundo melhor
Havia uma cicatriz no meu joelho
E, apesar dos olhos tristes
Não chorei, afinal
Era apenas um garoto sentado no alto do muro, sonhando

O vizinho saiu a varanda
Olhou-me com amor
Fiquei de pé e gritei corajoso: o senhor me ajudou a não ter mais medo!
Agora, já posso sonhar sem chorar!

O velhinho entrou rapidamente, pois queria esconder uma lágrima...

(Extraída de PEYON, E. Pequenas Conchinhas. Rio de Janeiro: Papel Virtual Ed., 2004)


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Richard Avedon
Difícil isto do ser poético:
Tem dias que nossa veia se esvai,
Vazando um sem número de palavras
Que não se encaixam nem se falam.
(antes fossem mosaicos)
Para formar, num repente,
Um imenso tecido de branco papel.
Então...
As velas da prosa se inflam,
Sopradas pelos ventos do drama,
Singrando os mares do sentido...
Rumo à terra das histórias bem contadas,
Onde todos os finais se encontram.


Rodrigo Soprana