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quarta-feira, 16 de março de 2011

Adeus




Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Eugénio de Andrade

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Poema à boca fechada

Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,... Ver mais
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.

José Saramago em: OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição

sexta-feira, 21 de maio de 2010

A disfunção

Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de a menos

Sendo que mais justo seria o de ter um parafuso trocado do que a menos.

A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa disfunção lírica.


Nomearei abaixo 7 sintomas nos poetas dessa disfunção lírica.


1 - Aceitação da inércia para dar movimento às palavras.


2 - Vocação para explorar os mistérios irracionais.


3 - Percepção das contigüidades anômalas entre verbos e substantivos.


4 - Gostar de fazer casamentos incestuosos entre palavras.


5 - Amor por seres desimportantes tanto como pelas coisas desimportantes.


6 - Mania de dar formato de canto às asperezas de uma pedra.


7 - Mania de comparecer aos próprios desencontros.


Essas disfunções líricas acabam por dar mais importância

aos passarinhos do que aos senadores.


Manoel de Barros, Tratado geral das grandezas do Ínfimo

sexta-feira, 12 de março de 2010

Música

Noite perdida,
não te lamento:... Ver mais
embarco a vida

no pensamento,
busco a alvorada
do sonho isento,

puro e sem nada,
- rosa encarnada,
intacta, ao vento.

Noite perdida,
noite encontrada,
morta, vivida,

e ressuscitada...
(Asa da lua
quase parada,

mostra-me a sua
sombra escondida,
que continua

a minha vida
num chão profundo!
- raiz prendida

a um outro mundo.)
Rosa encarnada
do sonho isento,

muda alvorada
que o pensamento
deixa confiada

ao tempo lento...
Minha partida,
minha chegada,

é tudo vento...

Ai da alvorada!
Noite perdida,
noite encontrada..

Cecília Meireles

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

EM PÉ

Continuo em pé

por pulsar

por costume

por não abrir a janela decisiva

e olhar de uma vez a insolente

morte

essa mansa

dona da espera



continuo em pé

por preguiça nas despedidas

no fechamento e demolição

da memória



não é um mérito

outros desafiam

a claridade

o caos

ou a tortura



continuar em pé

quer dizer coragem



ou não ter

onde cair

morto

mario benedetti

(De A Ras de Sueño, 1967)

sábado, 21 de novembro de 2009

Sete Janelas

Primeira: Janela da pele.
Órgão generoso do irmão corpo.
Pele de arder
Dilata quando pousas sua pele de cura na tez gelada de minhas fronteiras
Minhas pintinhas escorregam entre seus relevos ficando azuis
Bolas de gude idênticas àquelas mais almejadas pelas crianças

Segunda: Janela dos olhos,
Revela as lágrimas copiosas dos três dias
A mata dos seus olhos em meus próprios olhos
desvirando paisagens de prédios
na tela de suas íris

Terceira: Janela das mãos.
deixar quedar o afago de 100 milhões de anos que seus dedos traduzem
Dar-se em mãos no gesto de entrega

Quarta: Janela da boca,
Mais do que quente e molhada
Sagrada por ser mãe das palavras curtas e dos beijos longos.

Quinta:Janela do sexo
Carne em intenção de carne
Mineral de suas flores e chás,
Vegetal nos bichos que circulam apenas em seus jardins,
Animal dos seus cristais de esmeralda e quartzo.

Sexta: Janela do coração - Tão sereno

Sétima: Janela de cachoeira
Deixar-me plantar num grito toda esta água.
Infinitas canções de arco-íris.

Neste corpo tão grão,
Meu amor é pele, é olho, é mão, é boca, é sexo, é cachoeira
Tão aprendiz neste universo tão encantado que me rodeia e me é.

terça-feira, 17 de novembro de 2009


Não é a toa que entendo os que buscam caminho. Como busquei arduamente o meu! E como hoje busco com sofreguidão e aspereza o meu melhor modo de ser, o meu atalho, já que não ouso mais falar em caminho. Eu que tinha querido tanto. O Caminho, com letra maiúscula, hoje me agarro ferozmente á procura de um modo de andar, de um passo certo.
Mas o atalho com sombras refrescantes e reflexo de luz entre as árvores, o atalho onde eu seja finalmente eu, é outro, é os outros. Quando eu puder sentir plenamente o outro estarei salva e pensarei: eis o meu porto de chegada.

Clarice Lispector

domingo, 27 de setembro de 2009

Primavera sempre vem

Pensamentos de folhagem nova avisam aos aflitos que primavera sempre vem.
Se é dia de chuva cinza,
vem supondo água mais presente do que derrame.
Está ali mesmo na morte de quem não partiu
lembrando-nos da necessidade da vida de quem ficou
– saciar a fome, produzir calor, aplacar o medo.
Em cada idade de um jeito e em sua precisão.
Se é de despedida a hora do corpo,
vem no sorriso moço da filha da filha.
Vem encurtando a distância entre outono e verão,
escalando janela em gomo de flor que tinta a retina na promessa do novo companheiro.
Em nosso passo apoucado esquecemos no frio que primavera tem precisão de existência.
Nosso olhar que é miudinho,
guardado nos ponteiros do relógio de bolso.
Olhamos o tempo em linha,
quando seu feitio é de roda
O tempo...
tem história de espalhar bum
É matéria de virar galáxia
Na gira, difícil é aceitar nosso destino de estrela.