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sábado, 17 de outubro de 2009

A missa do Morro dos Prazeres



Sursum corda.
Ao alto os corações.
Subir,
com toda alegoria em cima,
subir,
subir a parada
que a lua cheia é a hóstia consagrada na vala negra aberta,
subir,
que o foguetório anuncia a chegada do carregamento,
subir,
querubim errante transformista,
subir,
o incensório da esquadrilha da fumaça-mãe,
subir,
como se inalasse a neve do Monte Fuji,
subir,
o visgo da jaca já gruda na pele,
subir,
salvam pipocos da chefia do movimento,
subir,
soou a hora da elevação,
subir que o morro é batizado
com a graça de Morro dos Prazeres
- topograficamente situado no Rio de Janeiro.
Subir o morro
que a missa católica do asfalto
- sem os paramentos e as jaculatórias do latim da infância -
pouco difere de reunião de condomínio,
sacrifício sem entusiasmós.


Waly Salomão
Hoje descobri algo muito importante: o momento. A vivência do momento é o que me interessa como expressão viva, é a anti-arte na realidade, pois o eterno não conta. Não me refiro ao ato, que vai numa sucessão de momentos mas ao momento mesmo: um dia de sol, azul no inverno do Rio, deu-me mais vivência inesperada, uma subia emoção: não me interessa a reprodução destes momentos nem em palavras nem em “obras”, mas o momento ou a verificação futura dele por outrem. Ah! Ambição suprema. Fazer com que verificássemos o momento quando é grande, uma vivência importante apesar de fugaz, e não fazê-la meio para uma “obra” ou outra coisa qualquer.

9 de agosto de 1966

Hélio Oiticica