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domingo, 27 de março de 2011

Veranico

Está marcando meio-dia nos olhos dos gatos.
As sombras esconderam-se debaixo da barriga dos cavalos.
A cidadezinha modorreia...A tarde
Avança, lentamente, como o casco coberto de poeira
Como uma tartaruga
O poema empaca, o poeta adormece
De chatice
A vida continua indiferente.


Mario Quintana Em preparativos de viagem

sábado, 26 de março de 2011

- Ela é tão livre que um dia será presa.
– Presa por quê?
– Por excesso de liberdade.
– Mas essa liberdade é inocente?
– É. Até mesmo ingênua. 

– Então por que a prisão?
– Porque a liberdade ofende.

Clarice Lispector

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Margarida Enlata

I

Foi de repente. Nesse de repente, ele ia indo pelo meio do aterro quando viu um canteiro de margaridas. Margarida era um negócio comum: ele via sempre margaridas quando ia para sua indústria, todas as manhãs. Margaridas não o comoviam, porque não o comoviam levezas. Mas exatamente de repente, ele mandou o chofer estacionar e ficou um pouco irritado com a confusão de carros às suas costas. O motorista precisou parar um pouco adiante, e ele teve que caminhar um bom pedaço de asfalto para chegar perto do canteiro. Estavam ali, independentes dele ou de qualquer outra pessoa que gostasse ou não delas: aquelas coisas vagamente redondas, de pétalas compridas e brancas agrupadas em torno dum centro amarelo, granuloso. Margaridas. Apanhou uma e colocou-a no bolso do paletó.
Diga-se em seu favor que, até esse momento, não premeditara absolutamente nada. Levou a margarida no bolso, esqueceu dela, subiu pelo elevador, cumprimentou as secretárias, trancou-se em sua sala. Como todos os dias, tentou fazer todas as coisas que todos os dias fazia. Não conseguiu. Tomou café, acendeu dois cigarros, esqueceu um no cinzeiro do lado direito, outro no cinzeiro do lado esquerdo, acendeu um terceiro, despediu três funcionários e passou uma descompostura na secretária. Foi só ao meio-dia que lembrou da margarida, no bolso do paletó. Estava meio informe e desfolhada, mas era ainda uma margarida. Sem saber exatamente por que, ficou pensando em algumas notícias que havia lido dias antes: o índice de suicídios nos países superdesenvolvidos, o asfalto invadindo as áreas verdes, a solidão, a dor, a poluição, a loucura e aquelas coisas sujas, perigosas e coloridas a que chamavam jovens. De repente, a luz. Brotou. Deu um grito:
—É isso!
Chamou imediatamente um dos redatores para bolar um slogan e esqueceu de almoçar e telefonou para suas plantações e mandou que preparassem a terra para novo plantio e ordenou a um de seus braços-direitos que comprasse todos os pacotes de sementes encontráveis no mercado depois achou melhor importá-las dos mais variados tamanhos cores e feitios depois voltou atrás e achou melhor especializar-se justamente na mais banal de todas aquela vagamente redonda de pétalas brancas e miolo granuloso e conseguiu organizar em poucos minutos toda uma equipe altamente especializada e contratou novos funcionários e demitiu outros e precisou tomar uma bolinha para suportar o tempo todo o tempo todo tinha consciência da importância do jogo exaustou afundou noite adentro sem atender aos telefonemas da mulher ao lado da equipe batalhando não podia perder tempo quase à meia-noite tudo estava resolvido e a campanha seria lançada no dia seguinte não podia perder tempo comprou duas ou três gráficas para imprimir os cartazes e mandou as fábricas de latas acelerar sua produção precisava de milhões de unidades dentro de quinze dias prazo máximo porque não podia perder tempo e tudo pronto voltou pelo meio do aterro as margaridas fantasmagóricas reluzindo em branco entre o verde do aterro a cabeça quase estourando de prazer e a sensação nítida clara definida de não ter perdido tempo. Dormiu.

II

No dia seguinte, acordou mais cedo do que de costume e mandou o chofer rodar pela cidade. Os cartazes. As ruas cheias de cartazes, as pessoas meio espantadas, desceu, misturou-se com o povo, ouviu os comentários, olhou, olhou. Os cartazes. O fundo negro com uma margarida branca, redonda e amarela, destacada, nítida. Na parte inferior, o slogan:

Ponha uma margarida na sua fossa.

Sorriu. Ninguém entendia direito. Dúvidas. Suposições: um filme underground, uma campanha antitóxicos, um livro de denúncia. Ninguém entendia direito. Mas ele e sua equipe sabiam. Os jornais e revistas das duas semanas seguintes traziam textos, fotos, chamadas:

O índice de poluição dos rios é alarmante.
Não entre nessa.
Ponha uma margarida na sua fossa.

Ou

O asfalto ameaça o homem e as flores.
Cuidado.
Use uma margarida na sua fossa.

Ou

A alegria não é difícil.
Fique atento no seu canto.
Basta uma margarida na sua fossa.

Jingles. Programas de televisão. Horário nobre. Ibope. Procura desvairada de margaridas pelas praças e jardins. Não eram encontradas. Tinham desaparecido misteriosamente dos parques, lojas de flores, jardins particulares. Todos queriam margaridas. E não havia margaridas. As fossas aumentaram consideravelmente. O índice de alcoolismo subiu. A procura de drogas também. As chamadas continuavam.

O índice de suicídios no país aumentou em 50%.
Mantenha distância.
Há uma margarida na porta principal.

Contratos. Compositores. Cibernéticos. Informáticos. Escritores. Artistas plásticos. Comunicadores de massa. Cineastas. Rios de dinheiro corriam pelas folhas de pagamento. Ele sorria. Indo ou vindo pelo meio do aterro, mandava o motorista ligar o rádio e ficava ouvindo notícias sobre o surto de margaridite que assolava o país. Todos continuavam sem entender nada. Mas quinze dias depois: a explosão.
As prateleiras dos supermercados amanheceram repletas do novo produto. As pessoas faziam filas na caixa, nas portas, nas ruas. Compravam, compravam. As aulas foram suspensas. As repartições fecharam. O comércio fechou. Apenas os supermercados funcionavam sem parar. Consumiam. Consumavam. O novo produto:
margaridas cuidadosamente acondicionadas em latas, delicadas latas acrílicas. Margaridas gordas, saudáveis, coradas em sua profunda palidez. Mil utilidades: decoração, alimentação, vestuário, erotismo. Sucesso absoluto. Ele sorria. A barriga aumentava. Indo e vindo pelo aterro, mergulhado em verde, manhã e noite — ele sorria. Sociólogos do mundo inteiro vieram examinar de perto o fenômeno. Líderes feministas. Teóricos marxistas. Porcos chauvinistas. Artistas arrivistas. Milionários em férias. A margarida nacional foi aclamada como a melhor do mundo: mais uma vez a Europa se curvou ante o Brasil.
Em seguida começaram as negociações para exportação: a indústria expandiu-se de maneira incrível. Todos queriam trabalhar com margaridas enlatadas. Ele pontificava. Desquitou-se da mulher para ter casos rumorosos com atrizes em evidência. Conferências. Debates. Entrevistas. Tornou-se uma espécie de guru tropical. Comentava-se em rodinhas esotéricas que seus guias seriam remotos mercadores fenícios. Ele havia tornado feliz o seu país. Ele se sentia bom e útil e declarou uma vez na televisão que se julgava um homem realizado por poder dar amor aos outros. Declarou textualmente que o amor era o seu país. Comentou-se que estaria na sexta ou sétima grandeza. Místicos célebres escreviam ensaios onde o chamavam de mutante, iniciado, profeta da Era de Aquarius. Ele sorria. Indo e vindo. Até que um dia, abrindo uma revista, viu o anúncio:

Margarida já era, amizade.
Saca esta transa:
O barato é avenca.

III

Não demorou muito para que tudo desmoronasse. A margarida foi desmoralizada. Tripudiada. Desprestigiada. Não houve grandes problemas. Para ele, pelo menos. Mesmo os empregados, tiveram apenas o trabalho de mudar de firma, passando-se para a concorrente. O quente era a avenca. Ele já havia assegurado o seu futuro — comprara sítios, apartamentos, fazendas, tinha gordos depósitos bancários na Suíça. Arrasou com napalm as plantações deficitárias e precisou liquidar todo o estoque do produto a preços baixíssimos. Como ninguém comprasse, retirou-o de circulação e incinerou-o.
Só depois da incineração total é que lembrou que havia comprado todas as sementes de todas as margaridas. E que margarida era uma flor extinta. Foi no mesmo dia que pegou a mania de caminhar a pé pelo aterro, as mãos cruzadas atrás, rugas na testa. Uma manhã, bem de repente, uma manhã bem cedo, tão de repente quanto aquela outra, divisou um vulto em meio ao verde. O vulto veio se aproximando. Quando chegou bem perto, ele reconheceu sua ex-esposa.
Ele perguntou:
– Procura margaridas?
Ela respondeu:
– Já era.
Ele perguntou:
– Avencas?
Ela respondeu:
– Falou.

Caio Fernando Abreu

sábado, 17 de abril de 2010

Palavra

Lavrada da brenha dos poetas
Adentro abismos temperados,
É a estação do silêncio.
Penso em verso porque a palavra assim roubada
humaniza tudo que é espada
A hora do assombro assenta-se
em seus contornos de grafia.
transvejo acolhimentos
suavizo tempestades.
Anuncio o diamante do mundo:
eros semeado.
Entre vinte e seis estrelas combinadas
toda a existência.
Suas frases, meu erguer de asas

terça-feira, 13 de abril de 2010

Olha, descobre este segredo:
uma coisa são duas – ela mesma e sua imagem.

Repara mais ainda.
Uma coisa são inúmeras coisas.

Sua imagem contém infinidade de imagens em estado de sonho,
germinando no espaço e na luz.

E as criaturas são também assim,
múltiplas de si mesmas.

A variedade de imagens revela o mundo que
nasce a cada instante em que o contemplas:
formas, ritmos, ângulos, expressões,
impressões, fragmentos, síntese.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 12 de abril de 2010

O lamento das coisas

Triste, a escutar, pancada por pancada,
A sucessividade dos segundos,
Ouço, em sons subterrâneos, do Orbe oriundos,
O choro da Energia abandonada!


É a dor da Força desaproveitada
— O cantochão dos dínamos profundos,
Que, podendo mover milhões de mundos,
jazem ainda na estática do Nada!


É o soluço da forma ainda imprecisa...
Da transcendência que se não realiza...
Da luz que não chegou a ser lampejo...


E é em suma, o subconsciente ai formidando
Da Natureza que parou, chorando,
No rudimentarismo do Desejo!

Augusto dos Anjos

domingo, 21 de março de 2010

A lua tem se minguado em um trabalho diário de concentração
Preste atenção cientista,
as páginas ainda estão em branco.
Mas a poeta prefere ir à praia.
Na toca do gato, tempero novo de minhas articulações.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Casablaca

Te acalma, minha loucura!
Veste galochas nos teus cílios tontos e habitados!
Este som de serra de afiar as facas... Ver mais
não chegará nem perto do teu canteiro de taquicardias...
Estas molas a gemer no quarto ao lado
Roberto Carlos a gemer nas curvas da Bahia
O cheiro inebriante dos cabelos na fila em frente no cinema...
As chaminés espumam pros meus olhos
As hélices do adeus despertam pros meus olhos
Os tamancos e os sinos me acordam depressa na madrugada feita de binóculos de gávea
e chuveirinhos de bidê que escuto rígida nos lençóis de pano

AC Cesar

domingo, 20 de dezembro de 2009

Uma furtiva lágrima

O mar insensivelmente azul engolindo-o
O sol ardentemente vermelho marcando-o
A terra secamente laranja cortando-o
O ar friamente cinza invadindo-o
O mundo assustadoramente belo
O mundo maravilhosamente estranho
Um muro e a casa do vizinho
O homem bem velhinho que cultivava goiabas
Ali no alto, senhor de tão magnífica paisagem
Sentei-me e chorei


A mulher languidamente sedutora
O irmão estendendo a mão
O pai olhando em silêncio
A mãe falando incessantemente
As pessoas me dizendo e eu nada entendendo
Um muro e a casa do vizinho
O homem bem velhinho que falava com as plantas e insetos
Ali no alto, amando em silêncio
Sentei-me e chorei


A cidade tão incrivelmente iluminada
A movimentada avenida
O estádio lotado

O prédio prateado sem fim de tão alto
As construções mirabolantes na cidade ruidosa
A miséria e a fome ao redor
Um muro e a casa do vizinho
O homem bem velhinho que reparava sua cerca e alimentava o vira-lata
[da rua]
Sentado no muro eu consertava o mundo e chorava


O corpo ardendo em febre
O ouvido doendo de tanto escutar
O nariz conflitadamente entupido
Os músculos irritadamente doloridos
Na pele as marcas da sobrevivência de um ser vivo
Um muro e a casa do vizinho
O homem bem velhinho que cuidava de sua doente esposa
No alto do muro eu inventava medicinas e chorava


Num belo dia de outono

Os passarinhos cantavam timidamente
E o sol acariciava com delicadeza a tez
Nesse dia comumente singelo
Decidi não apenas sentar-me no muro
Queria ficar mais alto, conhecer mais, fazer mais

Foi quando escorreguei
Caí, o joelho sangrou, eu acordei
Estava do outro lado do muro
E o vizinho homem bem velhinho
Ajudou-me a cuidar da ferida
Ele me disse com amor: a gente levanta para cair de novo.
Deu-me um beijo e uma goiaba
Contou-me que sua mulher chamava-se Maria e há anos não mais falava
Contou-me que em idos tempos adorava sentar-se naquele muro e
[sonhar]
Depois me disse com olhar profundo: já sabes o segredo
“Nada é melhor do que sonhar”
Choramos juntos e nos abraçamos.


No dia seguinte
Sentei-me no muro, olhei tudo o que já havia visto antes
Dominei a beleza do mundo
Inventei medicinas
Amei as mais belas mulheres
Liderei os homens na luta por um mundo melhor
Havia uma cicatriz no meu joelho
E, apesar dos olhos tristes
Não chorei, afinal
Era apenas um garoto sentado no alto do muro, sonhando

O vizinho saiu a varanda
Olhou-me com amor
Fiquei de pé e gritei corajoso: o senhor me ajudou a não ter mais medo!
Agora, já posso sonhar sem chorar!

O velhinho entrou rapidamente, pois queria esconder uma lágrima...

(Extraída de PEYON, E. Pequenas Conchinhas. Rio de Janeiro: Papel Virtual Ed., 2004)


sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Desaniversário

Um brinde à ausência da celebração dos cinco anos
De nossa carne que não se embaralha mais na fúria de nossas formas tão desiguais de estar no mundo.
No dia de tantas horas, foi a lua que assanhou a memória.
Antes de seu aviso não coube a temperatura de você
Percorri distancias e ideias onde não te vi em nenhum instante
Mas a danada em sua forma plena enche o sangue de hormônio.
Vou beber a madrugada.
Amanhã termino esse poema em construção.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Dá-me a tua mão

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério
e fogo que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

Clarice Lispector