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terça-feira, 24 de julho de 2012

Nos demais


Nos demais,
todo mundo sabe,
o coração tem moradia certa,
fica bem aqui no meio do peito,
mas comigo a anatomia ficou louca,
sou todo coração.

Vladimir Mayakovsky 

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A estrela de seis pontas


Ter a palavra que já sou.
Esmeraldas para dar.
Eu vejo poesia nos seus braços
e caminho entre líricas na cidade das pedras preciosas.
Se fores corajoso, essa será a sua primavera,
vou abrir a porta do seu coração.
Onde está a chave?
Vou até lá de gatinhos.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Na primeira parte

Existem redes azuis
cheias de aconchegos e chamegos,
como colos de amigas adocicadas,
como mães ensolaradas.
Existem pergaminhos onde se gravam encantamentos.
encontros pautados entre cachoeiras,
quando mesmo de baixo dágua se respira.

Dançando entre predicados de virtude
gestos de descontração e mel
Existem...
são pansóficos.

Basta o riscado e a pacatez.
No dia, 30 segundos reservados à cabeça ao avesso.

Desacelerar os rolamentos
entreter as desconsiderações.
Amanhã estando hoje
em reunião, sempre, com os amados.

Não vim a este mundo para entendimentos
 mesmo assim
busco bruxo...
Carlos.
Carlos na rima.
Carlos no claro enigma.
Carlos antológico.
Nas redes azuis despreguiçadas
das crianças em roda
e seus pirulitos de tutti frutti.
Não, professores e vermes
Só a infância do olho.
As cartilhas dos por quês.
Palavra é bom.
Vou morar em seu jardim.
Gosto do mar
urinar e bananas
Será este o verdadeiro sentimento do mundo?



terça-feira, 13 de abril de 2010

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca…

Fernando Pessoa

segunda-feira, 1 de março de 2010

Depois do Carnaval

Terminado o Carnaval, eis que nos encontramos com os seus melancólicos despojos: pelas ruas desertas, os pavilhões, arquibancadas e passarelas são uns tristes esqueletos de madeira; oscilam no ar farrapos de ornamentos sem sentido, magros, amarelos e encarnados, batidos pelo vento, enrodilhados em suas cordas; torres coloridas, como desmesurados brinquedos, sustentam-se de pé, intrusas, anômalas, entre as árvores e os postes. Acabou-se o artifício, desmanchou-se a mágica, volta-se à realidade.

À chamada realidade. Pois, por detrás disto que aparentamos ser, leva cada um de nós a preocupação de um desejo oculto, de uma vocação ou de um capricho que apenas o Carnaval permite que se manifestem com toda a sua força, por um ano inteiro contida.

Somos um povo muito variado e mesmo contraditório: o que para alguns parecerá defeito é, para outros, encanto. Quem diria que tantas pessoas bem comportadas, e aparentemente elegantes e finas, alimentam, durante trezentos dias do ano, o modesto sonho de serem ursos, macacos, onças, gatos e outros bichos? Quem diria que há tantas vocações para índios e escravas gregas, neste país de letrados e de liberdade?

Por outro lado, neste chamado país subdesenvolvido, quem poderia imaginar que há tantos reis e imperadores, princesas das Mil e Uma Noites, soberanos fantásticos, banhados em esplendores que, se não são propriamente das minas de Golconda, resultam, afinal, mais caros: pois se as gemas verdadeiras têm valor por toda a vida, estas, de preço não desprezível, se destinam a durar somente algumas horas.

Neste país tão avançado e liberal — segundo dizem — há milhares de corações imperiais, milhares de sonhos profundamente comprimidos mas que explodem, no Carnaval, com suas anquinhas e casacas, cartolas e coroas, mantos roçagantes (espanejemos o adjetivo), cetros, luvas e outros acessórios.

Aliás, em matéria de reinados, vamos do Rei do Chumbo ao da Voz, passando pelo dos Cabritos e dos Parafusos: como se pode ver no catálogo telefônico. Temos impérios vários, príncipes, imperatrizes, princesas, em etiquetas de roupa e em rótulos de bebidas. É o nosso sonho de grandeza, a nossa compensação, a valorização que damos aos nossos próprios méritos...

Mas, agora que o Carnaval passou, que vamos fazer de tantos quilos de miçangas, de tantos olhos faraônicos, de tantas coroas superpostas, de tantas plumas, leques, sombrinhas...?

"Ved de quán poco valor
Son las cosas tras que andamos
Y corremos..."

dizia Jorge Manrique. E no século XV! E falando de coisas de verdade! Mas os homens gostam da ilusão. E já vão preparar o próximo Carnaval...

Cecília Meireles

Texto extraído do livro "Quatro Vozes", Editora Record - Rio de Janeiro, 1998, pág. 93.