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domingo, 18 de setembro de 2011


A gramática, a mesma árida gramática, transforma-se em algo parecido a
uma feitiçaria evocatória; as palavras ressuscitam revestidas de carne e
osso, o substantivo, em sua majestade substancial, o adjetivo, roupa
transparente que o veste e dá cor como um verniz, e o verbo, anjo do
movimento que dá impulso á frase.


Charles Baudelaire

quarta-feira, 6 de julho de 2011

O estrangeiro

A quem mais amas, responde, homem enigmático: a teu pai, tua mãe, tua irmã ou teu irmão?


- Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.

- Teus amigos?

- Eis uma palavra cujo sentido, para mim, até hoje permanece obscuro.

- Tua pátria?

- Ignoro em que latitude está situada.

- A beleza?

- Gostaria de amá-la, deusa e imortal.

- O ouro?

- Detesto como detestais a Deus.

- Então! a que é que tu amas, excêntrico estrangeiro?

- Amo as nuvens...as nuvens que passam...longe...lá muito longe...as maravilhosas nuvens!

Charles Baudelaire

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Embriaga-te


Deve- se estar sempre bêbado. É a única questão.
A fim de não se sentir o fardo horrível do tempo,
que parte tuas espáduas e te dobra sobre a terra.
É preciso te embriagares sem trégua.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude?
A teu gosto, mas embriaga-te.
E se alguma vez sobre os degraus de um palácio,
sobre a verde relva de uma vala,
na sombria solidão de teu quarto,
tu te encontrares com a embriaguez já minorada ou finda,
peça ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo aquilo que gira, a tudo aquilo que voa,
a tudo aquilo que canta, a tudo aquilo que fala, a tudo aquilo que geme.
Pergunte que horas são. E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro,
o relógio, te responderão.
É hora de se embriagar !!!
Para não ser como os escravos martirizados pelo tempo, embriaga-te.
Embriaga-te sem cessar. De vinho, de poesia ou de virtude.
A teu gosto.


Charles Baudelaire

sábado, 6 de março de 2010

A voz

Meu berço ao pé da biblioteca se estendia,
Babel onde a ficção e ciência, tudo, o espolio
Da cinza negra ao pó do Lácio se fundia.
Eu tinha ali a mesma altura de um in-fólio.
Duas vozes ouvi. Uma, insidiosa, a mim
Dizia: "A Terra é um bolo apetitoso à goela;
Eu posso (e teu prazer seria então sem fim!)
Dar-te uma gula tão imensa quanto a dela."
A outra: "Vem! Vem viajar nos sonhos que semeias,
Além da realidade e do que além é infindo!"
E essa cantava como o vento nas areias,
Fantasma não se sabe ao certo de onde vindo,
Que o ouvido ao mesmo tempo atemoriza e afaga.
Eu te respondi: "Sim, doce voz!" É de então
Que data o que afinal se diz ser minha chaga,
Minha fatalidade. E por trás de telão
Dessa existência imensa, e no mais negro abismo,
Distintamente eu vejo os mundos singulares,
E, vítima do lúcido êxtase em que cismo,
Arrasto répteis a morder-me os calcanhares.
E assim como um profeta é que, desde esse dia,
Amo o deserto e a solidão do mar largo;
Que sorrio no luto e choro na alegria,
E apraz-me como suave o vinho mais amargo;
Que os fatos mais sombrios tomo por risonhos,
E que, de olhos no céu, tropeço e avanço aos poucos.
Mas a voz consola e diz: "Guarda teus sonhos:
Os sábios não os têm tão belos quanto os loucos!"

Baudelaire

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

A UMA PASSANTE


A rua em derredor era um ruído incomum.
Longa, magra, de luto e na dor majestosa,
Uma mulher passou e com a mão faustosa
Erguendo, balançando o festão e o debrum;

Nobre e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu bebia perdido em minha crispação
No seu olhar, céu que germina o furacão,
A doçura que embala e o frenesi que mata.

Um relâmpago e após a noite! - Aérea beldade,
E cujo olhar me fez renascer de repente,
Só te verei um dia e já na eternidade?

Bem longe, tarde, além, jamais provavelmente!
Não sabes meu destino, eu não sei aonde vais,
Tu que eu teria amado - e o sabias demais!


Baudelaire