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quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Junto a ti esquecerei


I
Junto a ti esquecerei as inúmeras partidas
- as cordas e as amarras nunca se quebraram
e talvez por isso eu permanecerei imóvel sob a tua influência...
Tu pesarás para mim como produto de âncoras
Como a pedra amarrada do pescoço do pecador.
Os portos passarão a ser beira de cais
as terras longínquas nada mais me dizem
- quebrei a bússola para evitar a tentação.
Tua presença é poderosa como urros na floresta.
Sinto que extingues em mim
a sombra dos navegadores.

II
A tua atitude te eleva para o alto.
Vejo que cortaste definitivamente todas as amarras.
Daqui eu advinho os olhos dos homens
perdidos no tempo que nada descobrirão de ti.
Deixa que os não-poetas falem de tua beleza,
esses nunca compreenderão o que há em ti de sombra,
de sementes germinando, de vozes de cavernas.
Nem ao menos que é o teu olhar que nos aproxima
que nos torna irmãos para o resto do tempo.
Eu te reconheceria entre todas, porque tua presença eu a pressinto.
Deixa que tuas formas eles a tomem pela essência.
Esses te perderão ainda mais
e nunca compreenderão tuas inúmeras sugestões
que tu mesma desconheces.

III
Esquecerei os teus convites de fuga.
As coisas presentes serão absolutamente insignificantes.
Sentir-me-ei em tua presença como o primeiro homem
que se ia apoderando de todas as formas desconhecidas.

IV
Esquecerei todos os convites de fuga.
Os portos serão para nós apenas
as âncoras e as amarras.
Nossos olhos não mais distinguirão
caravelas e transatlânticos sobre o mar.
Nossos ouvidos não mais perceberão
o barulho das ondas que são um chamamento constante.
Então leremos poetas bucólicos
debaixo de uma árvore que deverá ser frondosa.
Indefinidamente rodaremos em torno dela como num carrosel,
indefinidamente estarás comigo.

João Cabral de Melo Neto

sábado, 10 de setembro de 2011

Menos furacão,
mais maresia.

Mais corpo, mais água, mais tarde.
Menos amanhã.

Mais janela e mais sol.
Menos consideração.

Mais saliva, o abstrato do beijo.

Menos eu sei.
Mais grito.

Menos reto, menos ser.
Mais parabólica.

O sonho é um bom lugar de se está,

mas não tenho sono.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Lá longe


Lá longe
Onde a polícia lavra os campos
Lá longe
Onde ninguém cresce nem diminui,
Lá longe
Onde navios de guerra dormem dentro de garrafas.
Lá longe
Onde Oriente e Ocidente
Debruçados à janela dialogam.
Lá longe
Onde cada um
Tem seu pão, sua dama e sua paz,
Lá longe
Onde os descantos antigos movem o rio,
Lá longe
Onde forma, palavra e energia se unem,
Lá longe
Onde Deus caminha com pés de alfombra,
Lá longe
Onde "Quero nascer" a morte diz.

Murilo Mendes

quarta-feira, 7 de setembro de 2011



Ninguém precisa se assustar com a distância...os afastamentos que acontecem. Tudo volta! E voltam mais bonitas, mais maduras, voltam quando tem de voltar, voltam quando é pra ser. Acontece que entre o ainda-não-é-hora e nossa-hora-chegou, muita gente se perde...

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Ela foi encontrada

Ela foi encontrada!


Quem? A eternidade.

É o mar misturado

Ao sol.



Minha alma imortal,

Cumpre a tua jura

Seja o sol estival

Ou a noite pura.



Pois tu me liberas

Das humanas quimeras,

Dos anseios vãos!

Tu voas então...



— Jamais a esperança.

Sem movimento.

Ciência e paciência,

O suplício é lento.



Que venha a manhã,

Com brasas de satã,

O dever

É vosso ardor.



Ela foi encontrada!

Quem? A eternidade.

É o mar misturado

Ao sol.



Arthur Rimbaud

sábado, 18 de junho de 2011

O Que Há

O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo, cansaço.
A sutileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas -
Essas e o que falta nelas eternamente;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço, cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser... E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço...

MURILOGRAMA A CECÍLIA MEIRELES


Dorme no saltério & na magnólia ,
Dorme no cristal & em Cassiopéia .
Dorme em Cassiopéia & no saltério ,
Dorme no cristal & na magnólia .
O século é violento demais para teus dedos
Dúcteis afeiçoados ao toque dos duendes :
O século, ácido demais para uma pastôra
De nuvens , aponta o revólver aos mansos
Inermes no guaiar & columbrando a paz .
Armamentos em excesso, parquesombras de menos
Se antojam agora ao homem , antes criado
Para dança , alegria & ritmos de paz .

A faixa do céu glauco indica-te serena ,
Acolhe a ode trabalhada , nãogemente
Que ainda quer manter linguagem paralém .
Altas nuvens sacodem as crinas espiando
Teu sono incoativo . A noite vai inoltrada ,
Prepara úsnea de sêda à ságoma da tua lira
Que subjaz no corpo interrompido , diamante
Ahimè ! mortal que os deuses reclamaram .

Dorme em Cassiopéia & no saltério ,
Dorme no cristal & na magnólia .

Roma 1964

terça-feira, 8 de junho de 2010

Entre vírgulas

Eu sou barroca
alguns pedaços de mim já são adorno
outros destroços.

no meu traço o horizonte se estende
sempre no mesmo som e no mesmo azul
em versões infinitas de eventualidades.

Eu tenho apegos:
apego por meu novo guarda-chuva de hibisco
que atravessa a chuva com intenções de borboleta
e de rodopio de menina nas poças.
Apego por uma pilha equilibrada de livros ao lado da cama,
Rimbaud com mania de comparecer aos próprios desencontros
mesmo que sejam de amor natural.

Eu sou, aliás, uma vírgula
acerto de incertezas que garantem o assombro e o delicado da vida
entre enfim e até quando,
eu sinto tédio,
por isso respiro a mesma fotografia
e não faço questão de tomar chá as cinco.
Prefiro as horas afeitas aos poetas
e seus abraços se derretendo na roda de minha solitude.
Eu sou caminho.
E o carnaval é o ângulo onde mais estou crua.