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domingo, 6 de outubro de 2013

Não te rendas


 
Não te rendas, ainda é tempo
De se ter objetivos e começar de novo,
Aceitar tuas sombras,
Enterrar teus medos
Soltar o lastro,
Retomar o voo.

Não te rendas que a vida é isso,
Continuar a viagem,
Perseguir teus sonhos,
Destravar o tempo,
Correr os escombros
E destapar o céu.

Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio queime,
Ainda que o medo morda,
Ainda que o sol se esconda,
E o vento se cale,
Ainda existe fogo na tua alma.
Ainda existe vida nos teus sonhos.

Porque a vida é tua e teu também o desejo
Porque o tens querido e porque eu te quero
Porque existe o vinho e o amor, é certo.
Porque não existem feridas que o tempo não cure.
Abrir as portas,
Tirar as trancas,
Abandonar as muralhas que te protegeram,

Viver a vida e aceitar o desafio,
Recuperar o sorriso,
Ensaiar um canto,
Baixar a guarda e estender as mãos
Abrir as asas
E tentar de novo
Celebrar a vida e se apossar dos céus.

Não te rendas, por favor, não cedas,
Ainda que o frio te queime,
Ainda que o medo te morda,
Ainda que o sol ponha e se cale o vento,
Ainda existe fogo na tua alma,
Ainda existe vida nos teus sonhos
Porque cada dia é um novo começo,
Porque esta é a hora e o melhor momento
Porque não estás sozinho, porque eu te amo

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Nuevo Canal Interoceánico

Dorothy Lathrop
Te propongo construir
un nuevo canal
sin esclusas
... ni excusas
que comunique por fin
tu mirada
atlántica
con mi natural
pacífico.

Mario Benedetti

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Dos Afectos

Ruud Van Empel

Como fazer-te saber que há sempre tempo?

Que temos que buscá-lo e dá-lo…
Que ninguém estabelece normas, senão a vida…
Que a vida sem certas normas perde formas…
Que a forma não se perde com abrirmo-nos…
Que abrirmo-nos não é amar indiscriminadamente…
Que não é proibido amar…
Que também se pode odiar…
Que a agressão porque sim, fere muito…
Que as feridas fecham-se…
Que as portas não devem fechar-se…
Que a maior porta é o afecto…
Que os afectos definem-nos…
Que definir-se não é remar contra a corrente…
Que não quanto mais se carrega no traço mais se desenha…
Que negar palavras é abrir distâncias…
Que encontrar-se é lindo…
Que o sexo faz parte da lindeza da vida…
Que a vida parte do sexo…
Que o porquê das crianças tem o seu porquê…
Que querer saber de alguém não é só curiosidade…
Que saber tudo de todos é curiosidade malsã…
Que nunca é demais agradecer…
Que autodeterminação não é fazer as coisas sozinho…
Que ninguém quer estar só…
Que para não estar só há que dar…
Que para dar devemos antes receber…
Que para nos darem há também que saber pedir…
Que saber pedir não é oferecer-se…
Que oferecer-se, em definitivo, não é querer-se…
Que para nos quererem devemos mostrar quem somos…
Que para alguém ser é preciso dar-lhe ajuda…
Que ajudar é poder dar ânimo e apoiar…
Que adular não é apoiar…
Que adular é tão pernicioso como virar a cara…
Que as coisas cara a cara são honestas…
Que ninguém é honesto por não roubar…
Que quando não se tira prazer das coisas não se vive…
Que para sentir a vida temos de esquecer que existe a morte…
Que se pode estar morto em vida…
Que sentimos com o corpo e a mente…
Que com os ouvidos se escuta…
Que custa ser sensível e não se ferir…
Que ferir-se não é sangrar…
Que para não nos ferirmos levantamos muros…
Que melhor seria fazer pontes…
Que por elas se vai à outra margem e ninguém volta…
Que voltar não implica retroceder…
Que retroceder também pode ser avançar…
Que não é por muito avançar que se amanhece mais perto do sol…

Como fazer-te saber que ninguém estabelece normas, senão a vida?



Mario Benedetti

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Tática e Estratégia

Minha tática é olhar-te
aprender como tu és
querer-te como tu és

minha tática é falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível

minha tática é ficar em tua lembrança
não sei como nem sei
com que pretexto
porém ficar em ti

minha tática é ser franco
e saber que tu és franca
e que não nos vendemos
simulados
para que entre os dois
não haja cortinas
nem abismos

minha estratégia é em outras palavras
mais profunda e mais simples

minha estratégia é que um dia qualquer
não sei como nem sei
com que pretexto
por fim me necessites.

Mario Benedetti

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Defesa da Alegria


Haruo Horrara
 Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
...das ausências transitórias
e das definitivas


Defender a alegria como um princípio
defendê-la da surpresa e dos pesadelos
dos neutros e dos nêutrons
das doces infâmias
e dos graves diagnósticos


Defender a alegria com uma bandeira
defendê-la do raio e da melancolia
dos ingênuos e dos canalhas
da retórica e das paradas cardíacas
das endemias e das academias



Defender a alegria como um destino
defendê-la do fogo e dos bombeiros
dos suicidas e dos homicidas
das férias e do fardo
da obrigação de estarmos alegres



Defender a alegria como uma certeza
defendê-la do óxido e da sujeira
da famosa ilusão do tempo
do relento e do oportunismo
dos proxenetas do riso


Defender a alegria como um direito
defendê-la de deus e do inverno
das maiúsculas e da morte
dos sobrenomes e dos lamentos
do azar e também da alegria

Mario Benedetti


domingo, 6 de junho de 2010

Rosto de Ti



Tenho uma solidão
tão concorrida
tão cheia de nostalgias
e de rostos teus
de adeuses faz tempo
e beijos bem vindos
de primeiras de troca
e de último vagão.

Tenho uma solidão
tão concorrida
que posso organizá-la
como uma procissão
por cores
tamanhos
e promessas
por época
por tato e sabor.

Sem um tremer de mais
me abraço a tuas ausências
que assistem e me assistem
com meu rosto de ti.

Estou cheio de sombras
de noites e desejos
de risos e de alguma maldição

Meus hóspedes concorrem
concorrem como sonhos
com seus rancores novos
sua falta de candura
eu lhe ponho uma vassoura
atrás da porta
porque quero estar só
com meu rosto de ti.

Porém o rosto de ti
olha a outra parte
com seus olhos de amor
que já não amam
como vives
que buscam a sua fome
olham e olham
e apagar a jornada.

As paredes se vão
fica a noite
as nostalgias se vão
não fica nada.

Já meu rosto de ti
fecha os olhos.

E é uma solidão
tão desolada.


Mario Benedetti

Te quero


Tuas mãos são minha carícia
Meus acordes cotidianos
Te quero porque tuas mãos
Trabalham pela justiça
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
Teus olhos são meu conjuro
Contra a má jornada
Te quero por teu olhar
Que olha e semeia futuro
Tua boca que é tua e minha
Tua boca não se equivoca
Te quero porque tua boca
Sabe gritar rebeldia
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois
E por teu rosto sincero
E teu passo vagabundo
E teu pranto pelo mundo
Porque és povo te quero
E porque o amor não é auréola
Nem cândida moral
E porque somos casal
Que sabe que não está só
Te quero em meu paraíso
E dizer que em meu país
As pessoas vivem felizes
Embora não tenham permissão
Se te quero é porque tu és
Meu amor, meu cúmplice e tudo
E na rua lado a lado
Somos muito mais que dois.

Mário Benedetti


sexta-feira, 4 de junho de 2010

TRANSGRESIONES

Todo mandato es minucioso y cruel
me gustan ias fru gales transgresiones
por ejemplo inventar ei buen amor
aprender en los cuerpos
y en tu cuerpo oír la noche y no deczr amen
trazar cada uno ei mapa de su audacia
aun que nos olvidemos de olvidar
seguro que ei recuerdo nos olvida
obedecer a ciegas deja cíego
crecemos soíamente en ia osadía
só/o cuando transgredo aíguna orden el futuro se vueive respírabie
todo mandato es minucioso y cruel
me gustan las frugaies transgresiones


Todo mandato é minucioso e cruel
eu gosto das frugais transgressões
por exemplo inventar o bom amor
aprender nos corpos
e em seu corpo ouvir a noite e não dizer amém
traçar cada um o mapa de sua audácia
mesmo que nos esqueçamos de esquecer
é certo que a recordação nos esquece
obedecer cegamente deixa cego
crescemos somente na ousadia
só quando transgrido alguma ordem o futuro se torna respirável
todo mandato é minucioso e cruel
eu gosto das frugais transgressões

Mario Benedetti

SUBURBIA

Christopher-Petrich
En el centro de mi vida
en el núcleo capital de mi vida hay una fuente luminosa
un surtidor que aiza convicciones de cobres
y es lindo contemplarias y seguirias
en el centro de mi vida
en ei núcleo capital de mi vida
hay un dobor que palmo a palmo va ganando su tiempo
y es útil aprender su huella firme
en el centro de mi vida
en ei núcleo capital de mi vida
la muerte queda lejos la calma
tiene olor a lluvia
Ia iluvía tzene olor a tierra
esto me lo contaron
porque yo nunca estoy en ei centro de mi vida.

SUBÚRBIA

No centro da minha vida
no núcleo capital da minha vida há uma fonte luminosa
um chafariz que levanta convicções coloridas
e é lindo contemplá-las e segui-las
no centro da minha vida
no núcleo capital da minha vida há uma dor
que palmo a palmo vai ganhando seu tempo
e é útil aprender sua marca firme
no centro da minha vida
no núcleo capital da minha vida
a morte fica longe
a calma tem cheiro de chuva
a chuva tem cheiro de terra
isto me contaram
por que eu nunca estou no centro da minha vida.

Mario Benedetti


PEDRITAS EN LA VENTANA

a roberto y adelaida

De vez en cuando la alegria tira piedrítas contra mi ventana
quiere avisarme que está ahí esperando
pero hoy me siento calmo
casi diria ecuáníme
voy a guardar la angustia en su escondite
y íuego a tenderme cara ai techo
que es una posición gallarda y cómoda
para filtrar noticias
y creerlas quién sabe dónde quedan mis próximas huellas
ni cuándo mi historia va a ser computada
quién sabe quê consejos voy a inventar
aún y quê atajo hallaré para no seguirlos
está bien no jugaré aí desahucio
no tatuaré eI recuerdo cori olvidos mucho queda por decir y callar y también quedan uvas para llenar ia boca
está bien me doy por persuadido
que la alegria no tire más piedrítas
abriré la ventana
abriré la ventana


De vez em quando a alegria atira pedrinhas em minha janela
quer avisar-me que está lá esperando
mas hoje me sinto calmo
quase diria equânime
vou guardar a angústia em seu esconderijo
e logo estender-me de cara ao teto
que é uma posição galharda e cômoda para filtrar notícias
e acreditar nelas
quem sabe onde ficam minhas próximas pegadas
nem quando minha história vai ser computada
quem sabe que conselhos vou inventar ainda
e que atalho acharei para não segui-los
está certo não brincarei de despejo
não tatuarei a recordação com esquecimentos
muito fica por dizer e calar
e também ficam uvas para encher a boca
está bem me dou por persuadido
que a alegria não atire mais pedrinhas
abrirei a janela
abrirei a janela

Mario Benedetti

Botella al mar

Betty-Press
Pongo estos seis versos en mi botella al mar
con el secreto designio de que algún día
llegue a una playa casi desierta
y un niño la encuentre y la destape
y en lugar de versos extraiga piedritas
y socorros y alertas y caracoles.

Mario Benedetti




terça-feira, 23 de março de 2010

Yevgeny Khaldei
Quien me iba a decir que el destino era esto.

Ver la lluvia a través de letras invertidas,
un paredón con manchas que parecen prohombres,
el techo de los ómnibus brillantes como peces
y esa melancolia que impregna las bocinas.

Aqui no hay cielo,
aqui no hay horizonte.

Hay una mesa grande para todos los brazos
y una silla que gira cuando quiero escaparme.
Otro dia se acaba y el destino era esto.

Es raro que uno tenga tiempo de verse triste:
siempre suena una orden, un teléfono, un timbre,
y, claro, esta prohibido llorar sobre los libros
porque no queda bien que la tinta se corra.

M. Benedetti


quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

EM PÉ

Continuo em pé

por pulsar

por costume

por não abrir a janela decisiva

e olhar de uma vez a insolente

morte

essa mansa

dona da espera



continuo em pé

por preguiça nas despedidas

no fechamento e demolição

da memória



não é um mérito

outros desafiam

a claridade

o caos

ou a tortura



continuar em pé

quer dizer coragem



ou não ter

onde cair

morto

mario benedetti

(De A Ras de Sueño, 1967)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Papel molhado

Com rios
com sangue
com chuva
ou sereno
com sêmen
com vinho
com neve
com pranto
os poemas
costumam ser
papel molhado.

Mario Benedetti
Tradução de Maria Teresa Almeida Pina

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Ontem

Ontem passou o passado lentamente
com sua vacilação definitiva
sabendo-te infeliz à deriva
com tuas dúvidas estampadas na testa.
Ontem passou o passado pela ponte
e levou tua liberdade prisioneira
trocando seu silêncio em carne viva
por teus leves alarmes de inocente.
Ontem passou o passado com sua história
e sua desfiada incerteza
com sua pegada de espanto e de reprovação.
Foi fazendo da dor apenas um costume
semeando de fracassos tua memória
e deixando-te só com, da noite, a solidão.

Mario Benedetti

A PONTE


Maarten Vanden Abeele
Para cruzá-la ou não cruzá-la
eis a ponte
na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país
trago comigo oferendas desusadas
entre elas um guarda-chuva de umbigo de madeira
um livro com os pânicos em branco
e um violão que não sei abraçar
venho com as faces da insônia
os lenços do mar e das pazes
os tímidos cartazes da dor
as liturgias do beijo e da sombra
nunca trouxe tanta coisa
nunca vim com tão pouco
eis a ponte
para cruzá-la ou não cruzá-la
e eu vou cruzar
sem prevenções
na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país


Mario Benedetti
(De Preguntas al azar – 1984-1985)



quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Porque cantamos

Clayton Bastani
Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel

você perguntará por que cantamos

se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha

você perguntará por que cantamos

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o rio esta soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino

cantamos pela infância e porque tudo
e porque algum futuro e porque o povo
cantamos porque os sobreviventes
e nossos mortos querem que cantemos

cantamos porque o grito só não basta
e já não basta o pranto nem a raiva
cantamos porque cremos nessa gente
e porque venceremos a derrota

cantamos porque o sol nos reconhece
e porque o campo cheira a primavera
e porque nesse talo e lá no fruto
cada pergunta tem a sua resposta

cantamos porque chove sobre o sulco
e somos militantes desta vida
e porque não podemos nem queremos
deixar que a canção se torne cinzas.


Mario Benedetti

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Memorándum

Um chegar e incorporar-se o dia
Dois respirar para subir a ladeira
Três não jogar-se em uma só aposta
Quatro escapar da melancolia
Cinco aprender a nova geografia
Seis não ficar-se nunca sem a sesta
Sete o futuro não será uma festa e
Oito não assustar-se ainda
Nove vai a saber quem é o forte
Dez não deixar que a paciência ceda
Onze cuidar-se da boa sorte
Doze guardar a última moeda
Treze não tratar-se com a morte
Catorze desfrutar enquanto se pode.

Mario Benedetti
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)