Mostrando postagens com marcador Jacek Yerka. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jacek Yerka. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 21 de agosto de 2013



Between Heaven and Hell -Jacek Yerka



Quero ser o teu amor amigo. Nem demais e nem de menos. 
Nem tão longe e nem tão perto. 
Na medida mais precisa que eu puder. 
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida, 
Da maneira mais discreta que eu souber. 
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar. 
Sem forçar tua vontade. 
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amor amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias...

Fernando Pessoa

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Amor



Quero um amor alucinado, depravado, tarado.
Amor inteiro, de corpo-a-corpo, enlaçados.
Amor sem reserva, que a tudo se entrega, lancinante.
Quero você assim, abrasada, pedindo gozo,
Eriçada, ronronando feito gata, tesuda.
Seus seios túmidos, me furando o peito.
Quero você, pentelho contra pentelho, roçantes.
Carne encravada na carne. Bocas coladas,
Babadas, meladas, sangrando sufocadas.
Quero amar você tão bichalmente que urremos.
Eu, penetrando rasgando. Você me comendo furiosa.
Nós dois fundidos, unidos, soldados.
Você e eu, nós dois, sós, neste mundo dos outros.

Darcy Ribeiro


domingo, 25 de novembro de 2012

Coito abstrato


Jacek Yerka
Quero te comer agora.
Suas elipses róseas na boca do céu
antes de que a lua saia.
Vou me distrair nas suas costas.
Serei lá uma montanha firme.
É essa a paisagem que quero assistir:
Seu corpo sob o duro piso.
A úmida caverna.
As petulantes nádegas.
Antes que a lua saia te dar o céu do céu.
Descansar nas margens dos rios que escorrerão.
Não terás um gozo gris.
Só o abismo de flores.
Depois, requisitarei os teus peitos.
De lá
tirarei o sal para continuar a te contar histórias.
E assim, frente a frente, lembrarei melhor de sua boca.
Minha imaginária vulva.
Até a hora do gozo homicida
teremos muitas memórias de beijos para nos agarrar. 
Sobreviveremos juntos,

alucinados.





.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Aprender a viver em pleno pavio



Jacek Yerka
 Ai, o Vazio
A dor,
O incolor.
A volta da vontade é grande
para quem vê todo avesso do mundo.
Conhece a tranca.


São frágeis as cercas diante dos homens inclinados sobre o horror.
A voz do sinhô é pouca água.


No tempo,
certo como o tempo não para nunca de andar,
penumbras crepitam em crimes.


O poder maior está na morte.
A cartilha, o aço, a cruz
assassinar por dentro.


Devolver o pó
da verdade
em pólvora
do espanto.


Não é o olho que vê,
é a pessoa.


Convocar do verso belas armas.
Saber, justiça, magia.
Ao pavio do mundo mover-se.


Todo homem tem mais água
 mais farol
e outros homens.


domingo, 4 de novembro de 2012

Desejo

 Jacek Yerka

Só o desejo não passa
e só deseja o que passa
e passo meu tempo inteiro
a enfrentar um só problema
ao menos no meu poema
agarrar o passageiro.

Antonio Cícero

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Gertrudes Pede um Conselho

Jacek Yerka
 
 



De fato, nos últimos tempos, Tuda não passava nada bem. Ora sentia uma inquietação sem nome, ora uma calma exagerada e repentina. Tinha frequentemente vontade de chorar, e o que em geral se reduzia à vontade apenas, como se a crise se completasse no desejo. Uns dias, cheia de tédio, enervada e triste. Outros, lânguida como uma gata, embriagando-se com os menores acontecimentos. Uma folha caindo, um grito de criança, e pensava: mais um momento e não suportarei tanta felicidade. E realmente não a suportava, embora não soubesse propriamente em que consistia a felicidade. Caía num choro abafado, aliviando-se, com a impressão confusa de que se entregava, a não sei quem e não sei de que forma. Às lágrimas sucedia-se, acompanhando os olhos inchados, um estado de suave convalescença, de aquiescência a tudo. Surpreendia s todos com sua doçura e transparência e, ainda mais, forçava uma leveza de passarinho. Dava esmolas a todos os pobres, com a graça de quem joga flores. De outras vezes, enchia-se de força. Seu olhar tornava-se duro como aço, áspero como espinhos. Sentia que“podia”. Fora feita para “libertar”.

(...)

- Olhe, Tuda, o que me agradaria dizer-lhe é que você um dia terá o que agora procura tão confusamente. É uma espécie de calma que vem do conhecimento de si própria e dos outros. Mas não se pode apressar a vinda desse estado. Há coisas que só se aprende quando ninguém as ensina. E com a vida é assim. Mesmo há mais beleza em descobri-la sozinha, apesar do sofrimento. – A doutora sentiu um súbito cansaço, tinha a impressão de que a ruga nº 3, do nariz os lábios, afundara. Aquela menina fazia-lhe tão mal e ela queria estar de novo só. – Olhe, tenho certeza de que você ainda terá muita felicidade. Os sensíveis são simultaneamente mais infelizes e felizes que os outros. Mas dê um tempo ao tempo! – Como era vulgar com facilidade, refletiu sem amargura. – Vá vivendo… -Sorriu. E de repente Tuda sentiu aquele rosto entrando bem na sua alma. Não era da boca, nem dos olhos que vinha aquele ar… ar divino. Era como uma sombra terrivelmente simpática, vacilando sobre a doutora. E, no mesmo instante, Tuda soube que não mentira, ah, não! Uma alegria, uma vontade de chorar. Ah, ajoelhar-se diante da doutora, esconder o rosto no seu regaço, gritar: é isso que eu tenho, é isso! Só lágrimas! A doutora já não sorria. Pensava. Olhando-a, assim, de perfil, Tuda já não a entendia mais. De novo, uma estranha. Buscou-a depressa, à outra, a divina:- Por que a senhora disse: “o que me agradaria dizer-lhe…”? Então não é a verdade? A menina era mais perspicaz do que pensara. Não, não era a verdade. A doutora sabia que se pode passar a vida inteira buscando qualquer coisa atrás da neblina, sabia também da perplexidade que traz o conhecimento de si própria e dos outros. Sabia que a beleza de descobrir a vida é pequena para quem procura principalmente a beleza nas coisas.

(...)

Clarice Lispector