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terça-feira, 21 de agosto de 2012
A gente se negava corromper-se aos bons costumes
A gente se negava corromper-se aos bons costumes.
A gente examinava a racha dura das lagartixas
Só para brincar de ciência.
A gente grosava a peça dos morcegos com o
lado cego das facas
Só para vê-los chiar com mais entusiasmo.
Fazíamos meninagem com as priminhas à
sombra das bananeiras, debaixo dos laranjais
Só de homenagem ao nosso Casemiro de Abreu.
Não era mister de ser versado em Kant pra se
saber que os passarinhos da mesma plumagem
voam juntos.
Nem era preciso ser versado em Darwin pra se
saber que os carrapichos não pregam no vento.
Que, apois:
Sábio não é o homem que inventou a primeira bomba atômica.
Sábio é o menino que inventou a primeira
lagartixa.
Manoel de Barros
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
À meia-noite, pelo telefone
À meia-noite, pelo telefone,
conta-me que é fulva a mata do teu púbis.
Outras notícias
do corpo não quer dar, nem de seus gostos.
Fecha-se em copas:
"Se não vem depressa até aqui
nem eu posso correr à sua casa,
que seria de mim até o amanhecer?"
Concordo, calo-me.
Carlos Drummond de Andrade
conta-me que é fulva a mata do teu púbis.
Outras notícias
do corpo não quer dar, nem de seus gostos.
Fecha-se em copas:
"Se não vem depressa até aqui
nem eu posso correr à sua casa,
que seria de mim até o amanhecer?"
Concordo, calo-me.
Carlos Drummond de Andrade
domingo, 30 de maio de 2010
INVERNÁCULO
Esta língua não é minha,
qualquer
um percebe.
Quem
sabe maldigo mentiras,
vai
ver que só minto verdades.
...
Assim me falo, eu, mínima,
quem
sabe, eu sinto, mal sabe.
Esta
não é minha língua.
A
língua que eu falo trava
uma
canção longínqua,
a
voz, além, nem palavra.
O
dialeto que se usa
à
margem esquerda da frase,
eis
a fala que me lusa,
eu,
meio, eu dentro, eu, quase
Paulo
Leminski
quinta-feira, 22 de abril de 2010
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