terça-feira, 5 de janeiro de 2010
O copo
Estava o jacaré na beira do brejo
tomando um copo de sol.
Foi o menino
E tascou uma pedra
No olho do jacaré.
O bicho soltou três urros
E quebrou o silêncio do lugar.
Os cacos do silêncio ficaram espalhados
na praia.
O copo de sol não rachou nem.
Manoel de Barros
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Ontem
Ontem passou o passado lentamente
com sua vacilação definitiva
sabendo-te infeliz à deriva
com tuas dúvidas estampadas na testa.
Ontem passou o passado pela ponte
e levou tua liberdade prisioneira
trocando seu silêncio em carne viva
por teus leves alarmes de inocente.
Ontem passou o passado com sua história
e sua desfiada incerteza
com sua pegada de espanto e de reprovação.
Foi fazendo da dor apenas um costume
semeando de fracassos tua memória
e deixando-te só com, da noite, a solidão.
Mario Benedetti
com sua vacilação definitiva
sabendo-te infeliz à deriva
com tuas dúvidas estampadas na testa.
Ontem passou o passado pela ponte
e levou tua liberdade prisioneira
trocando seu silêncio em carne viva
por teus leves alarmes de inocente.
Ontem passou o passado com sua história
e sua desfiada incerteza
com sua pegada de espanto e de reprovação.
Foi fazendo da dor apenas um costume
semeando de fracassos tua memória
e deixando-te só com, da noite, a solidão.
Mario Benedetti
A PONTE
![]() |
| Maarten Vanden Abeele |
Para cruzá-la ou não
cruzá-la
eis
a ponte
na
outra margem alguém me espera
com
um pêssego e um país
trago
comigo oferendas desusadas
entre
elas um guarda-chuva de umbigo de madeira
um
livro com os pânicos em branco
e
um violão que não sei abraçar
venho
com as faces da insônia
os
lenços do mar e das pazes
os
tímidos cartazes da dor
as
liturgias do beijo e da sombra
nunca
trouxe tanta coisa
nunca
vim com tão pouco
eis
a ponte
para
cruzá-la ou não cruzá-la
e
eu vou cruzar
sem
prevenções
na
outra margem alguém me espera
com
um pêssego e um país
Mario
Benedetti
(De
Preguntas al azar – 1984-1985)
domingo, 3 de janeiro de 2010
A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
Manoel de Barros
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um sujeito que abre portas,
que puxa válvulas, que olha o relógio,
que compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.
Manoel de Barros
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Porque cantamos
![]() |
| Clayton Bastani |
Se cada hora vem com sua
morte
se
o tempo é um covil de ladrões
os
ares já não são tão bons ares
e
a vida é nada mais que um alvo móvel
você
perguntará por que cantamos
se
nossos bravos ficam sem abraço
a
pátria está morrendo de tristeza
e
o coração do homem se fez cacos
antes
mesmo de explodir a vergonha
você
perguntará por que cantamos
se
estamos longe como um horizonte
se
lá ficaram árvores e céu
se
cada noite é sempre alguma ausência
e
cada despertar um desencontro
você
perguntará por que cantamos
cantamos
porque o rio esta soando
e
quando soa o rio / soa o rio
cantamos
porque o cruel não tem nome
embora
tenha nome seu destino
cantamos
pela infância e porque tudo
e
porque algum futuro e porque o povo
cantamos
porque os sobreviventes
e
nossos mortos querem que cantemos
cantamos
porque o grito só não basta
e
já não basta o pranto nem a raiva
cantamos
porque cremos nessa gente
e
porque venceremos a derrota
cantamos
porque o sol nos reconhece
e
porque o campo cheira a primavera
e
porque nesse talo e lá no fruto
cada
pergunta tem a sua resposta
cantamos
porque chove sobre o sulco
e
somos militantes desta vida
e
porque não podemos nem queremos
deixar
que a canção se torne cinzas.
Mario
Benedetti
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Memorándum
Um chegar e incorporar-se o dia
Dois respirar para subir a ladeira
Três não jogar-se em uma só aposta
Quatro escapar da melancolia
Cinco aprender a nova geografia
Seis não ficar-se nunca sem a sesta
Sete o futuro não será uma festa e
Oito não assustar-se ainda
Nove vai a saber quem é o forte
Dez não deixar que a paciência ceda
Onze cuidar-se da boa sorte
Doze guardar a última moeda
Treze não tratar-se com a morte
Catorze desfrutar enquanto se pode.
Mario Benedetti
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
Dois respirar para subir a ladeira
Três não jogar-se em uma só aposta
Quatro escapar da melancolia
Cinco aprender a nova geografia
Seis não ficar-se nunca sem a sesta
Sete o futuro não será uma festa e
Oito não assustar-se ainda
Nove vai a saber quem é o forte
Dez não deixar que a paciência ceda
Onze cuidar-se da boa sorte
Doze guardar a última moeda
Treze não tratar-se com a morte
Catorze desfrutar enquanto se pode.
Mario Benedetti
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
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