sábado, 15 de maio de 2010

Vermelho

Coração lanceado em sua pele de dobraduras
Por que acontece?
Acho que estou sentimental.
Da próxima vez prefiro flanar junto às estrelas
Não me convide para fumar um cigarro contigo.
Minha intenção está nas letras de um livro.
Tenho muito sono e pouco dom.
Quero sossego.
Preciso de gás que sustente a água do chá.
Já chegou o outono.
Vou  travada, assim, com tantas coisas indizíveis
Escorrem meus suspiros no bico da chaleira.
A vida, uma explosão de forças desordenadas,
violentas.
Fome e incerteza, restituo-me em seu ritmo exaltante.
Dançando rente aos pés do vago e do impreciso.
Hoje troquei o caju para seu novo vaso solitário.
.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Eu me perdi


Eu me perdi na sordidez de um mundo
Onde era preciso ser
Polícia agiota fariseu
Ou cocote

Eu me perdi na sordidez do mundo
Eu me salvei na limpidez da terra

Eu me busquei no vento e me encontrei no mar
E nunca
Um navio da costa se afastou
Sem me levar

Sophia de Mello Breyner

A Cantada

Você é mais bonita que uma bola prateada de papel de cigarro

Você é mais bonita que uma poça dágua límpida num lugar escondido

Você é mais bonita que uma zebra

Que um filhote de onça

Que um Boeing 707 em pleno ar

Você é mais bonita que um jardim florido em frente ao mar em Ipanema

Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobras de noite

Mais bonita que Ursula Andress

Que o palácio da Alvorada

Mais bonita que a alvorada

Que o mar azul-safira da República Dominicana

Olha, você é tão bela quanto o Rio de Janeiro em maio

E, quase tão bonita quanto a Revolução Cubana

Ferreira Gullar

domingo, 9 de maio de 2010

Rodeado

Eu gosto demais de ventar poesia por ai.
Parece que faço dobradura de origami com o torto da vida.
Dei uma volta no rancho de um verso
e nem sabia,
mas cada canto que via,
dizia,
ninguém devia
ter licença pra catucar no osso da gente

sábado, 8 de maio de 2010

As ensinanças da dúvida

Tive um chão (mas já faz tempo)
todo feito de certezas
tão duras como lajedos.

Agora (o tempo é que o fez)
tenho um caminho de barro
umedecido de dúvidas.

Mas nele (devagar vou)
me cresce funda a certeza
de que vale a pena o amor.

Thiago de Mello
Quanto mais ando, querendo pessoas, parece que entro mais no sozinho do vago - foi o que pensei na ocasião. De pensar assim me desvalendo. Eu tinha culpa de tudo, na
minha vida, e não sabia como não ter. Apertou em mim aquela tristeza, da pior de todas, que é a sem razão de motivo, que quando notei que estava com dor-de-cabeça, e achei que por certo a tristeza vinha era daquilo, isso me serviu de bom consolo. E eu
nem sabia mais o montante que queria, nem aonde eu extenso ía.

João Guimarães Rosa
Em "Grande sertão: Veredas"
Tivesse medo? O mundo da confusão das coisas, no mover desses futuros, que tudo é desordem. E, enquanto houver no mundo um vivente medroso, um menino tremor, todos perigam - o contagioso. Mas ninguém tem a licença de fazer medo nos outros, ninguém tenha. O maior direito que é meu - o que quero e sobrequero - é que ninguém tem o direito de fazer medo em mim!

João Guimarães Rosa
Em "Grande sertão: Veredas"
Aquilo nem era só mata, era até florestas! Montamos direito, no Olho-d'Água-das-Outras, andamos, e demos com a primeira vereda - dividindo as chapadas - : o flaflo de vento agarrado nos buritis, franzido no gradeal de duas folhas altas; e, sassafrazal - como o da alfazema, um cheiro que refresca; e aguadas que molham sempre. Vento que vem de toda parte. Dando no meu corpo, aquele ar me falou em gritos de liberdade. Mas liberdade - aposto - ainda é só alegria de um pobre caminhozinho, no dentro do ferro e grandes prisões. Tem uma verdade que se carece de aprender, do encoberto, e que ninguém não ensina:o beco para a liberdade se fazer. Sou um homem ignorante. Mas, me diga o senhor: a vida não é cousa terrível?
Lengalenga. Fomos, fomos.

João Guimarães Rosa em "Grande sertão: Veredas"

Cesário Verde

Quis dizer o mais claro e o mais corrente
Em fala chã e em lúcida esquadria
Ser e dizer na justa luz do dia
Falar claro falar limpo falar rente

Porém nas roucas ruas da cidade
A nítida pupila se alucina
Cães se miram no vidro de retina
E ele vai naufragando como um barco

Amou vinhas e searas e campinas
Horizontes honestos e lavados
Mas bebeu a cidade a longos tragos
Deambulou por praças por esquinas

Fugiu da peste e da melancolia
Livre se quis e não servo dos fados
Diurno se quis- porém a luzidia
Noite assombrou os olhos dilatados

Reflectindo o tremor da luz nas margens
Entre ruelas vê-se ao fundo o rio
Ele o viu com seus olhos de navio
Atentos à surpresa das imagens

Sophia de Mello Breyner Andresen, Ilhas, 1989

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Alumbramento

Eu vi os céus! Eu vi os céus!
Oh, essa angélica brancura
Sem tristes pejos e sem véus!

Nem uma nuvem de amargura
Vem a alma desassossegar.
E sinto-a bela...e sinto-a pura.

Eu vi nevar! Eu vi nevar!
Oh, cristalizações da bruma
A amortalhar, a cintilar!

Eu vi o mar! Lírios de espuma
Vinham desabrochar à flor
Da água que o vento desapruma....


Eu vi a estrela do pastor...
Vi a licorne alvinitente!...
Vi...vi o rastro do senhor!...

E vi a via láctea ardente...
Vi comunhões...capelas...véus...
Súbito...alucinadamente...

Vi carros triunfais...troféus...
Pérolas grandes como a lua...
Eu vi os céus! Eu vi os céus!

– Eu vi-a nua...toda nua!

Manuel Bandeira

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Acaso

No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.

Perco-me subitamente da visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigentemente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar,
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era a respeito de uma rapariga,
De uma rapariga loira,
Mas qual delas?
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade
Numa outra espécie de rua;
Por que todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional.
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser... A rapariga loira?
É a mesma afinal...
Tudo é o mesmo afinal ...

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal.

Álvaro de Campos