sábado, 17 de março de 2012

Luar


Todo buraco está cheio de (lu)ar.
Mesmo nas notas de semi.lua sem.lua semi.nua
Semin.(l)ua

quarta-feira, 14 de março de 2012

Sempre (Uma triangulação quintanesa)


Sou o dono dos tesouros perdidos no fundo do mar.
Só o que está perdido é nosso para sempre.
Nós só amamos os amigos mortos
E só as amadas mortas amam eternamente…

Mario Quintana

Torre Azul

É preciso construir uma torre
- uma torre azul para os suicidas.
Têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores,
qualquer coisa de anjo que perdeu as asas.
É preciso construir-lhes um túnel
- um túnel sem fim e sem saída
e onde um trem viajasse eternamente
como uma nave em alto-mar perdida.
É preciso construir uma torre…
É preciso construir um túnel…
É preciso morrer de puro,
puro amor!…

Mario Quintana

Os Arroios

 
Os arroios são rios guris…
Vão pulando e cantando dentre as pedras.
Fazem borbulhas d’água no caminho: bonito!
Dão vau aos burricos,
às belas morenas,
curiosos das pernas das belas morenas.
E às vezes vão tão devagar
que conhecem o cheiro e a cor das flores
que se debruçam sobre eles nos matos que atravessam
e onde parece quererem sestear.
Às vezes uma asa branca roça-os, súbita emoção
como a nossa se recebêssemos o miraculoso encontrão
de um Anjo…
Mas nem nós nem os rios sabemos nada disso.
Os rios tresandam óleo e alcatrão
e refletem, em vez de estrelas,
os letreiros das firmas que transportam utilidades.
Que pena me dão os arroios,
os inocentes arroios…

terça-feira, 13 de março de 2012

Tentativa


Michelle Teague

Manhã básica, alcalina,
neutralizando a gota ácida do sol.
O tornassol do céu, no fundo
do grande tubo de ensaio,
vai se espessando, cada vez mais azul.

Dos poços da marna alagada,
cheios, como frascos chatos sem gargalos,
sobem vapores alvacentos.
A pressão calca cinco atmosferas,
e o calor cresce,
nas alavancas de pirômetros negros,
dilatando as sombras.

Rápida,
uma revoada triangular de periquitos
estraleja e crepita,
flambada em alça enorme de platina,
como o fio de chama, fugidio e verde,
de um sal de boro...

Quanto esforço da manhã,
para riscar tão alto,
um corisco de esperança...

João Guimarães Rosa

segunda-feira, 12 de março de 2012

A vida sempre foi boa comigo



A vida sempre foi boa comigo!
Quando soube que o meu coração
estava carregado de sombras,
e que ele só se alimenta de luz,
abriu uma janela no meu peito,
para que por ela, possam entrar
o resplendor do orvalho,
o fulgor das estrelas,
e o invisível arco-íris do amor.

Thiago de Mello

quarta-feira, 7 de março de 2012

Amor - Vida



Vivi entre os homens
Que não me viram, não me ouviram
Nem me consolaram.
Eu fui o poeta que distribui seus dons
E que não recebe coisa alguma.
Fui envolvido na tempestade do amor,
Tive que amar até antes do meu nascimento.
Amor, palavra que funda e consome os seres.
Fogo, fogo do inferno: melhor que o céu.

Murilo Mendes

terça-feira, 6 de março de 2012

Off price



Que a sorte me livre do mercado
e que me deixe
continuar fazendo (sem o saber)
fora de esquema
meu poema
inesperado


e que eu possa
cada vez mais desaprender
de pensar o pensado
e assim poder
reinventar o certo pelo errado

Ferreira Gullar

quinta-feira, 1 de março de 2012



Tome-se duas dúzias de beijocas 
Acrescente-se uma dose de manteiga do desejo 
Adicione-se três gramas de polvilho do Ciúme
Deite-se quatro colheres de açúcar da Melancolia
Coloque-se dois ovos
Agite-se com o braço da Fatalidade 
E dê de duas horas em duas horas marcadas
No relógio de um ponteiro só!

Pegue-se 3 litros do visgo da amizade 
Ajunte-se 3 quilos do açúcar cristalizado da admiração
Perfume-se com 5 tragos da pinga do entusiasmo
Mexa-se até ficar melado bem pegajento
E engula-se tudo de uma vez
Como adesão do Mário de Andrade 
Ao almoço
PraTarsila
E
Oswaldo
Amém.

Entre dos Aguas