terça-feira, 12 de novembro de 2013




Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marioneta de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente pensaria tudo o que digo. Daria valor às coisas, não pelo o que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e disfrutaria de um bom gelado de chocolate.
Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida vestiria simplesmente, jorgar-me-ia de bruços no solo, deixando a descoberto não apenas meu corpo, como também a minha alma.
Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria o meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saisse. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema de Mário Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à Lua. Regaria as rosas com as minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo das suas pétalas.
Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida!… Não deixaria passar um só dia sem dizer às pessoas: amo-te, amo-te. Convenceria cada mulher e cada homem de que são os meus favoritos e viveria apaixonado pelo amor.
Aos homens, provar-lhes-ia como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar.
A uma criança, daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha.
Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.
Tantas coisas aprendi com vocês, os homens… Aprendi que todos querem viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a rampa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta, com sua pequena mão, pela primeira vez, o dedo do pai, tem-no prisioneiro para sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se.
São tantas as coisas que pude aprender com vocês, mas, a mim não poderão servir muito, porque quando me olharem dentro dessa maleta, infelizmente estarei a morrer.

Gabriel García Marquéz

segunda-feira, 11 de novembro de 2013


No meu aniversário de 21 anos, Robert me fez um pandeiro, tatuando a pele de cabra com signos do zodíaco e amarrando fitas multicoloridas na base. Colocou Tim Buckley cantando Phantasmagoria in two, então se ajoelhou e me deu um livrinho sobre tarô que ele havia reencapado com seda preta. Dentro havia escrito alguns versos, retratando-nos como a cigana e o louco, uma criando o silêncio; o outro ouvindo o silêncio atentamente. No turbilhão retumbante de nossas vidas, esses papéis se inverteriam várias vezes. (...) Ele me escreveu um bilhete dizendo que faríamos arte juntos e conseguiríamos, com ou sem o resto do mundo.






A melhor coisa naquele lugar havia sido o colar persa e ter conhecido Robert, que manteve sua palavra ao não dar o colar a nenhuma garota. Em nossa primeira noite juntos no Hall Street, ele me deu o adorado colar, embrulhado em um pano roxo e amarrado com uma faixa preta de cetim. O colar foi e voltou, circulando entre nós, ao longo dos anos. A propriedade era de quem precisasse mais. Nosso pendor mútuo para os códigos se manifestava em diversas brincadeirinhas. A mais frequente se chamava Um Dia Um, Outro Dia Outro. A premissa era simplesmente que um de nós sempre tinha que estar atento, sendo o protetor escolhido. Se Robert tomasse uma droga, eu precisava estar presente e consciente. Se eu estava deprimida, ele precisava estar animado. Se um adoecia, o outro ficava saudável. O importante era que nunca exagerássemos no mesmo dia. No começo fraquejei, e ele estava sempre lá com um braço, uma palavra de estímulo, coagindo-me a sair de dentro de mim mesma e mergulhar no meu trabalho. Mas ele também sabia que eu não falharia se ele precisasse que eu fosse forte. 


Patti Smith - Só garotos

Canções da Inocência e da Experiência



 
mark.rothko
A tocar minha flautinha
Pelo vale viridente
Vi nas nuvens uma criança.
Disse-me ela, sorridente:
Toque a canção do Cordeiro!
E eu toquei com alegria.
Flautista, toque outra vez
– E chorou, enquanto ouvia.
Deixe a flauta
a alegre flauta,
Cante canções de alegria.
Toquei o mesmo outra vez
E o vi chorar quando ouvia.
Flautista, sente-se e escreva
Num livro, que o mundo leia –
E então desapareceu
E um caniço eu apanhei
E fiz dele a minha pena,
E turvei as águas mansas,
E escrevi canções felizes,
Para alegrar as crianças.



William Blake