segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Amar uma vez e sempre

Nelson Rodrigues

Kátia Vevel, Rio - A rigor, a sua tragédia não existe: ou só existe de uma maneira muito relativa. O mais importante, o fundamental, você tem: ama e é amado. E se quer obter um mínimo de felicidade, parta, sempre, do seguinte princípio: o verdadeiro amor não pode ser integralmente feliz. Você sabe qual é o grande erro da maioria absoluta das mulheres? Ei-lo: - achar que o fato de amar implica, obrigatoriamente, a felicidade. Quem ama, pensa que vai ser felicíssimo; e estranha qualquer espécie de sofrimento. Ora, a vida ensina, justamente, que duas criaturas que se amam, sofrem, fatalmente. Não por culpa de um ou de outro; mas em conseqüência do próprio sentimento. É exato que os amores têm seus êxtases deslumbrantes, momentos perfeitos, musicais etc. etc. mas eu disse "momentos" e não 24 horas de cada dia.
Quando uma mulher apaixonada se queixa, eu tenho vontade de fazer-lhe esta pergunta: "não lhe basta amar? Você quer, ainda por cima, ser feliz?". Pois o destino quando concede a graça inefável do amor, subtrai uma série de outras coisas. Antes de mais nada, o sossego. Quem ama, não tem sossego, perdeu-o, para sempre. A intensidade de qualquer amor é, por si mesma, trágica. Você, minha doce amiga, escreve: "tenho ciúme de tudo e de todos". E isso já implica num sofrimento incessante e atroz. Mas, acontece uma coisa com os sofrimentos do amor: eles se tornam um hábito, se fazem necessários e, no fim de certo tempo, se incorporam à nossa vida, participam dela, de maneira integral. Sofrer pela criatura amada - permita que lhe diga - não é um mal, é quase um bem. Você conhece tristezas mais lindas, mais inspiradoras, do que as tristezas do amor? Não, não há minha querida amiga. Uma pessoa sensata diria: "são tristezas", ao que eu replicaria: "Mas de amor!". E tristezas desta natureza valem qualquer alegria.Vejamos, porém, concretamente, o seu caso. Você, há tempos, teve uma lesão pulmonar. Não sei se a chamada "peste branca" espanta alguém. A mim, não. Nem doença de espécie alguma. Se há amor, qualquer espécie de enfermidade, ainda as mais atrozes, torna mais doce e mais fortes os vínculos que unem duas criaturas. E mais vale uma lesão pulmonar do que uma lesão de caráter, uma lesão de alma. As únicas doenças que realmente, me assustam são as morais. Durante o seu tratamento, você ficou em uma tal prostração que, digamos, se desinteressou da vida. Foi um mal, cara amiga. Se lhe faltava saúde, sobrava-lhe, no entanto, uma série de outros dons, para merecer a vida e dignificá-la. Mais tarde, quando você ficou boa, encontrou-se acidentalmente, com aquele que seria o seu bem amado. Um olhar, um brevíssimo flirt e este resultado maravilhoso: um amor recíproco e definitivo. Mas sucede que havia uma outra se interpondo entre vocês dois. Uma outra que não fazia o seu bem-amado feliz; que não o compreendia; que não tentava um esforço pela sua felicidade. Ele tinha companhia e era solitário. Ora, não há pior solidão do que estar mal acompanhado. Mais vale o deserto do Saara. Assim, ele encontrou, em você, toda a ânsia, toda a sede de amar. E você o retribuiu, apaixonadamente. Então, começou o que você chama o seu martírio. Você sofria e isso o espantava. Se você tivesse experiência de vida, saberia que o sofrimento, maior ou menor, é inseparável do amor. Impossível amar sem sofrer. E quando não há motivos concretos, a pessoa os inventa. O amoroso, ou amorosa, é, por excelência, fabricante de fantasmas, fabricante de possibilidades sinistras. Chega-se a sofrer por hipóteses as mais remotas, as mais inverossímeis, as mais absurdas. Imaginemos o marido de uma senhora honestíssima. Ele se põe a pensar: - "e se ela, um dia, me trair?". É isto que eu chamo sofrer por hipótese. Você sofreria, Kátia, se a situação fosse outra, e outras as circunstâncias. Contente-se com momentos de felicidade, não queria ser feliz as 24 horas do dia. Não sonhe com uma felicidade que não é compatível com a nossa condição humana.Você me perguntou se deve contar a criatura amada o seu ciúme. Acho que não. E explicarei por quê. Na minha opinião, a grande sabedoria, em amor, consiste em ter o ciúme e escondê-lo, ou , então, dar ao ciúme uma exteriorização muito pouco agressiva, muito pouco truculenta. Ouça, Kátia: não acredite que o seu bem-amado a traia. Mesmo que ele quisesse, não o conseguiria. Ninguém gosta de duas pessoas ao mesmo tempo. Assim como ele é o único homem para você, você é, para ele, a única mulher na face da Terra.

Rosa Tumultuada


sábado, 3 de outubro de 2009







Pérola do mar

Ter você no abraço é como bala de mel,
aveluda o assoalho íngreme e irregular da vida
Tem mistérios que apenas sua existência inaugura:
uma soma com dom de multiplicações.
Só com você desenho sereias orelhudas.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Desaniversário

Um brinde à ausência da celebração dos cinco anos
De nossa carne que não se embaralha mais na fúria de nossas formas tão desiguais de estar no mundo.
No dia de tantas horas, foi a lua que assanhou a memória.
Antes de seu aviso não coube a temperatura de você
Percorri distancias e ideias onde não te vi em nenhum instante
Mas a danada em sua forma plena enche o sangue de hormônio.
Vou beber a madrugada.
Amanhã termino esse poema em construção.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Diz-me o filósofo alemão
“Quanto mais inteligente a mulher, tanto mais se afasta o homem."

Pondera a francesa em meus olhos
“os homens não gostam de mulher-homem, nem de mulher culta, nem de mulher que sabe o que quer: ousadia demais, cultura, inteligência, caráter, assustam-nos”

Socorro, que sina.

Valha-me graça que sou ignorante total ao amar certinho os homens.

Peguei então o bonde para assim tentar andar mais lento.
Tinha homem pendurado no trilho.
Saltei e resolvi andar a pé.
meu passo foi longo
ultrapassou a cadência do apito

E este frio que dorme na solidão dos meus ossos?
Pensamentos que não me deixam ficar só
precipitados nas caldeiras da vida
cozinhando, cozinhado...

Gringo cantando samba é de virar gargalhada.
Hoje recebi duas lágrimas de menina
Espero ter dado as palavras certas.
a vida dói.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Poesia trouxe querença vaga para o coração
além muito
da varanda
em vernal vagueio.
Mas se trouxe vastidão de mundo
não esqueceu de trazer acompanhada
vagarezas solitárias de vivências pessoais viandantes.
Decisão difícil deixar irem os tão poucos pandas que ainda há.

Quem me dera conhecer todas as palavras em suas infinitas combinações
para assim não violentar
tão vivamente
versos que vêem desesperados em voltar velejar pelos seus vasos.
Hoje peguei a vigésima segunda letra de vítima.
Vai ver foi por vontade de voar acompanhada.
Veja, voltear com versarias visões minhas na sua tela,
vou não.
Ventou nas verdades que eu tinha visto.
Só se for para vicejar suas vértebras.
Você não deixa.
Vale mais vaguear vivendo.
Ser poeta, a cada dia te nasce uma vírgula no ventre

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça

Sem que eu pedisse, fizeste-me a graça
de magnificar meu membro.
Sem que eu esperasse, ficaste de joelhos
em posição devota.
O que passou não é passado morto.
Para sempre e um dia
o pênis recolhe a piedade osculante de tua boca.
Hoje não estás nem sei onde estarás,
na total impossibilidade de gesto ou comunicação.
Não te vejo não te escuro não te aperto
Mas tua boca está presente, adorando.
Adorando.
Nunca pensei ter entre as coxas um deus.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Os Degraus

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...
Mario Quintana - Baú de Espantos