terça-feira, 31 de agosto de 2010
O Mito
Sequer conheço fulana,
Vejo
fulana tão curto
Fulana
jamais me vê,
Mas
como amo fulana.
Amarei
mesmo fulana?
Ou
é ilusão de sexo?
Talvez
a linha do busto,
Da
perna, talvez o ombro.
Amo
fulana tão forte,
Amo
fulana tão dor,
Que
todo me despedaço
E
choro,menino, choro
Mas
fulana vai se rindo...
Vejam
fulana dançando
No
esporte ele está sozinha
No
bar, quão acompanhada.
E
fulana diz mistérios,
Diz
marxismo, rimmel, gás.
Fulana
me bombardeia,
No
entanto sequer me vê.
E
sequer nos compreendemos,
É
dama de alta fidúcia,
Tem
latifúndios, iates,
Sustenta
cinco mil pobres,
Menos
eu...que de orgulhoso
Me
basto pensando nela
Pensando
com unha, plasma,
Fúria,
gilete, desânimo.
Amor
tão disparatado,
Desbaratado
é que é...
Nunca
a sentei no meu colo
Nem
vi pela fechadura.
Mas
sei quanto me custa
Manter
esse gelo digno,
Essa
indiferença gaia, e não gritar:vem, fulana!
Como
deixar de invadir
Sua
casa de mil fechos
E
sua veste arrancando
Mostrá-la
depois ao povo
Tal
como deve ser:
Branca,
intata, neutra, rara,
Feita
de pedera translúcida,
De
ausência e ruivos ornatos.
Mas
como será fulana,
Digamos,
no seu banheiro?
Só
de pensar em seu corpo,
O
meu se punge...pois sim.
Porque
preciso do corpo
Para
mendigar fulana,
Rogar-lhe
que pise em mim,
Que
me maltrate...assim não.
Mas
fulana será gente?
Estará
somente em ópera?
Será
figura de livros?
Será
bicho? saberei?
Não
saberei? só pegando,
Pedindo:
dona, desculpe,
O
seu vestido, esconde algo?
Tem
coxas reais? cintura?
Fulana
às vêzes existe
Demais:
até me apavora.
Vou
sozinho pela rua,
Eis
que fulana me roça.
Mas
não quero nada disso.
Para
que chatear fulana?
Pancada
na sua nuca
Na
minha que vai doer.
E
daí não sou criança
Fulana
estudo meu rosto
Coitado:
de raça branca
Tadinho:
tinha gravata
Já
morto, me quererá?
Esconjuro,
se é necrófila...
Fulana
é vida, ama as flores,
As
artérias e as debêntures.
Sei
que jamais me perdoara
Matar-me
para servi-la.
Fulana
quer homens fortes
Couraçados,
invasores.
Fulana
é tão dinâmica
Tem
um motor na barriga.
Suas
unhas são elétricas,
Seus
beijos refrigerados,
Desinfetados,
gravados
Em
máquina multilite.
Fulana,
como é sadia!
Os
enfermos somos nós.
Sou
eu, o poeta precário
Que
fêz de fulana um mito
Nutrindo-me
de petrarca,
Ronsard,
camões e capim;
Que
a sei embebida em leite,
Carne,
tomate, ginástica
E
lhe colo metafísicas,
Enigmas,
causas primeiras.
Mas,
se tentasse construir
Outra
fulana que não
Essa
de burguês sorisso
E
de tão burro esplendor?
Mudo-lhe
o nome: recorto-lhe
Um
traje de transparência;
Já
perde a carência humana
E
bato-a; de tirar sangue.
E
lhe dou todas as faces
De
meu sonho que especula;
E
abolimos a cidade
Já
sem peso e nitidez.
E
vadeamos a ciência,
Mar
de hipóteses.a lua
Fica
sendo nosso esquema
De
um território mais justo.
E
colocamos os dados
De
um mundo sem classe e imposto;
E
nesse mundo instalamos
Os
nossos irmãos vingados:
E
nessa fase gloriosa,
De
contradições extintas,
Eu
e fulana, abrasados,
Queremos...que
mais queremos?
E
digo a fulana: amiga,
Afinal
nos compreendemos.
Já
não sofro, já não brilhas,
Mas
somos a mesma coisa
(
uma coisa tão diversa da que pensava que fossemos.)
Carlos
Drummond de Andrade, em Antologia Poética
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
Cidadezinha qualquer
Coração numeroso
Foi no Rio.
Eu passava na Avenida quase meia-noite.
Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.
Havia a promessa do mar
e bondes tilintavam,
abafando o calor
que soprava no vento
e o vento vinha de Minas.
Meus paralíticos sonhos desgosto de viver
(a vida para mim é vontade de morrer)
faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente
na Galeria Cruzeiro quente quente
e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro,
nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso.
Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas
autos abertos correndo caminho do mar
voluptuosidade errante do calor
mil presentes da vida aos homens indiferentes,
que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram.
O mar batia em meu peito, já não batia no cais.
A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu
a cidade sou eu
sou eu a cidade
meu amor.
Carlos Drummond de Andrade, em Antologia Poética
Eu passava na Avenida quase meia-noite.
Bicos de seio batiam nos bicos de luz estrelas inumeráveis.
Havia a promessa do mar
e bondes tilintavam,
abafando o calor
que soprava no vento
e o vento vinha de Minas.
Meus paralíticos sonhos desgosto de viver
(a vida para mim é vontade de morrer)
faziam de mim homem-realejo imperturbavelmente
na Galeria Cruzeiro quente quente
e como não conhecia ninguém a não ser o doce vento mineiro,
nenhuma vontade de beber, eu disse: Acabemos com isso.
Mas tremia na cidade uma fascinação casas compridas
autos abertos correndo caminho do mar
voluptuosidade errante do calor
mil presentes da vida aos homens indiferentes,
que meu coração bateu forte, meus olhos inúteis choraram.
O mar batia em meu peito, já não batia no cais.
A rua acabou, quede as árvores? a cidade sou eu
a cidade sou eu
sou eu a cidade
meu amor.
Carlos Drummond de Andrade, em Antologia Poética
domingo, 29 de agosto de 2010
Perguntas
Numa incerta hora fria
perguntei ao fantasma
que força nos prendia,
ele a mim, que presumo
estar livre de tudo,
eu a ele, gasoso,
todavia palpável
na sombra que projeta
sobre meu ser inteiro:
um ao outro, cativos
desse mesmo princípio
ou desse mesmo enigma
que distrai ou concentra
e renova e matiza,
prolongando-a no espaço
uma angústia do tempo.
Perguntei-lhe em seguida
o segredo de nosso
convívio sem contato,
de estarmos ali quedos,
eu em face do espelho,
e o espelho devolvendo
uma diversa imagem,
mas sempre evocativa
do primeiro retrato
que compõe de si mesma
a alma predestinada
a um tipo de aventura
terrestre, cotidiana.
Perguntei-lhe depois
por que tanto insistia
nos mares mais exíguos
em distribuir navios
desse calado irreal,
sem rota ou pensamento
de atingir qualquer porto,
propícios a naufrágio
mais que à navegação;
nos frios alcantis
de meu serro natal,
desde muito derruído,
em acordar memórias
de vaqueiros e vozes,
magras reses, caminhos
onde a bosta de vaca
é o único ornamento,
e o coqueiro-de-espinho
desolado se alteia.
Perguntei-lhe por fim
a razão sem razão
de me inclinar aflito
sobre restos de restos,
de onde nenhum alento
vem refrescar a febre
desse repensamento:
sobre esse chão de ruínas
imóveis, militares
na sua rigidez
que o orvalho matutino
já não banha ou conforta.
No vôo que desfere,
silente e melancólico,
rumo da eternidade
ele apenas responde
(se acaso é responder
a mistérios, somar-lhes
um mistério mais alto):
Amar, depois de perder.
Carlos Drummond de Andrade, em Antologia Poética
perguntei ao fantasma
que força nos prendia,
ele a mim, que presumo
estar livre de tudo,
eu a ele, gasoso,
todavia palpável
na sombra que projeta
sobre meu ser inteiro:
um ao outro, cativos
desse mesmo princípio
ou desse mesmo enigma
que distrai ou concentra
e renova e matiza,
prolongando-a no espaço
uma angústia do tempo.
Perguntei-lhe em seguida
o segredo de nosso
convívio sem contato,
de estarmos ali quedos,
eu em face do espelho,
e o espelho devolvendo
uma diversa imagem,
mas sempre evocativa
do primeiro retrato
que compõe de si mesma
a alma predestinada
a um tipo de aventura
terrestre, cotidiana.
Perguntei-lhe depois
por que tanto insistia
nos mares mais exíguos
em distribuir navios
desse calado irreal,
sem rota ou pensamento
de atingir qualquer porto,
propícios a naufrágio
mais que à navegação;
nos frios alcantis
de meu serro natal,
desde muito derruído,
em acordar memórias
de vaqueiros e vozes,
magras reses, caminhos
onde a bosta de vaca
é o único ornamento,
e o coqueiro-de-espinho
desolado se alteia.
Perguntei-lhe por fim
a razão sem razão
de me inclinar aflito
sobre restos de restos,
de onde nenhum alento
vem refrescar a febre
desse repensamento:
sobre esse chão de ruínas
imóveis, militares
na sua rigidez
que o orvalho matutino
já não banha ou conforta.
No vôo que desfere,
silente e melancólico,
rumo da eternidade
ele apenas responde
(se acaso é responder
a mistérios, somar-lhes
um mistério mais alto):
Amar, depois de perder.
Carlos Drummond de Andrade, em Antologia Poética
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
Freireana n.I
Me perdi no mapa mundi
entre latitudes e logitudes de dúvidas.
Me assisti
ao me conceber inacabada.
Ser mais
é quase sempre um acidente trágico,
tantos não chegam a ser nesse riscado.
Eu me situo entre os vermes,
no ponto tão limitado da minha crença.
Saber que o que vejo é só o não ver
exige lealdade ao outro.
Um estado de alongamentos em direção ao diferente que é igual a mim.
Nós, não mais do que só o nosso cadáver.
entre latitudes e logitudes de dúvidas.
Me assisti
ao me conceber inacabada.
Ser mais
é quase sempre um acidente trágico,
tantos não chegam a ser nesse riscado.
Eu me situo entre os vermes,
no ponto tão limitado da minha crença.
Saber que o que vejo é só o não ver
exige lealdade ao outro.
Um estado de alongamentos em direção ao diferente que é igual a mim.
Nós, não mais do que só o nosso cadáver.
quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Cancelem todas as crianças,
os homens não querem mais amar.
Se o destino é a distinção,
por que insistir em algum projeto?
Vendamos terapia, anti-alérgicos e corações de silicone.
Existir é uma fraude,
entre pinguins, vamos beber original.
Em tempo,
ainda no ponto e vírgula,
visto a fantasia recomendada do baú de minha infâcia.
Não é o álcool, não é a festa, nem a madrugada borrada.
É o outro verso deste revés.
O poeta passarinhando.
Sabiando nas nuvens estaladas no cucuruco róseo do céu.
O bordador de vaga-lumes,
nas franjas de minhas desesperanças.
Confie brilho às fantasias.
Esteja sempre um poeta
confiado
e
fingidor.
Um forjador de lantejoulas.
os homens não querem mais amar.
Se o destino é a distinção,
por que insistir em algum projeto?
Vendamos terapia, anti-alérgicos e corações de silicone.
Existir é uma fraude,
entre pinguins, vamos beber original.
Em tempo,
ainda no ponto e vírgula,
visto a fantasia recomendada do baú de minha infâcia.
Não é o álcool, não é a festa, nem a madrugada borrada.
É o outro verso deste revés.
O poeta passarinhando.
Sabiando nas nuvens estaladas no cucuruco róseo do céu.
O bordador de vaga-lumes,
nas franjas de minhas desesperanças.
Confie brilho às fantasias.
Esteja sempre um poeta
confiado
e
fingidor.
Um forjador de lantejoulas.
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Dona Doida
![]() |
Uma vez, quando eu era
menina, choveu grosso
com
trovoadas e clarões, exatamente como chove agora.
Quando
se pôde abrir as janelas,
as
poças tremiam com os últimos pingos.
Minha
mãe, como quem sabe que vai escrever um poema,
decidiu
inspirada: chuchu novinho, angu, molho de ovos.
Fui
buscar os chuchus e estou voltando agora,
trinta
anos depois. Não encontrei minha mãe.
A
mulher que me abriu a porta, riu de dona tão velha,
com
sombrinha infantil e coxas à mostra.
Meus
filhos me repudiaram envergonhados,
meu
marido ficou triste até a morte,
eu
fiquei doida no encalço.
Só
melhoro quando chove.
Adélia
Prado
domingo, 22 de agosto de 2010
Historiador
Veio para ressuscitar o tempo
e escalpelar os mortos,
as condecorações, as liturgias, as espadas,
o espectro das fazendas submergidas,
o muro de pedra entre membros da família,
o ardido queixume das solteironas,
os negócios de trapaça, as ilusões jamais confirmadas
nem desfeitas.
Veio para contar
o que não faz jus a ser glorificado
e se deposita, grânulo,
no poço vazio da memória.
É importuno,
sabe-se importuno e insiste,
rancoroso, fiel.
Carlos Drummond de Andrade, em 'A Paixão Medida'
e escalpelar os mortos,
as condecorações, as liturgias, as espadas,
o espectro das fazendas submergidas,
o muro de pedra entre membros da família,
o ardido queixume das solteironas,
os negócios de trapaça, as ilusões jamais confirmadas
nem desfeitas.
Veio para contar
o que não faz jus a ser glorificado
e se deposita, grânulo,
no poço vazio da memória.
É importuno,
sabe-se importuno e insiste,
rancoroso, fiel.
Carlos Drummond de Andrade, em 'A Paixão Medida'
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