domingo, 6 de novembro de 2011

Canção de outono

Perdoa-me, folha seca,
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo,
e até do amor me perdi.

De que serviu tecer flores
pelas areias do chão,
se havia gente dormindo
sobre o própro coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando áqueles
que não se levantarão...

Tu és a folha de outono
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
Certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

Cecília Meireles

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Meu vestido rosa é só um disfarce


Disfarce são também seus ventos caprichosos e desleixados.
Tipo o mar na beirada das falésias
ou os jardins caiados para enfrentar formigas.
No melhor dos dias eis canção.
Musa das criações humanas que ardem.
Se existimos, sempre é cedo para escalar a montanha.
Ainda que o topo nevado pareça mais quente que a respiração de certos homens.
Afinal, todos estamos sóis.
Trágicos destinos são inimagináveis até uma certa hora:
bater a cabeça e não morrer
morrer e não cair.
Ter suas vontades rebaixadas à sétima divisão.
Depois,
eis que é cruzada uma nova fronteira com o vento.
Eis que são reveladas possibilidades que apavoram.
Por isso, saquei seu segredo.
Mas não digo não digo não digo.
Poetas são inconfessáveis
Lá embaixo são voláteis as penúrias dos homens.
Aqui é acetomel o movimento do planeta.

Acendo um cigarro e vou rodar
Mariazinha insiste em me acompanhar com seu vestido rosa.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Perguntado acerca dos fatores que destroem os seres humanos, Mahatma Gandhi respondeu:


"A política, sem princípios;
o prazer, sem compromisso;
a riqueza, sem trabalho;
... a sabedoria, sem caráter;
os negócios, sem moral;
A ciência, sem humanidade.
A vida me ensinou que as pessoas são amigáveis, se eu sou amável,
que as pessoas são tristes, se estou triste,
que todos são ruins, se eu os odeio,
que há rostos sorridentes, se eu lhes sorrio,
que há faces amargas, se eu sou amargo,
que o mundo está feliz, se eu estou feliz,
que as pessoas ficam com raiva quando eu estou com raiva,
que as pessoas são gratas, se eu sou grato.
A vida é como um espelho: se você sorri para o espelho, ele sorri de volta. A atitude que eu tomar perante a vida é a mesma atitude que a vida vai tomar perante minha pessoa".

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A brusca poesia da mulher amada (II)

A mulher amada carrega o cetro, o seu fastígio
É máximo. A mulher amada é aquela que aponta para a noite
E de cujo seio surge a aurora. A mulher amada
É quem traça a curva do horizonte e dá linha ao movimento dos astros.
Não há solidão sem que sobrevenha a mulher amada
Em seu acúmen. A mulher amada é o padrão índigo da cúpula
E o elemento verde antagônico. A mulher amada
É o tempo passado no tempo presente no tempo futuro
No sem tempo. A mulher amada é o navio submerso
É o tempo submerso, é a montanha imersa em líquen.
É o mar, é o mar, é o mar a mulher amada
E sua ausência. Longe, no fundo plácido da noite
Outra coisa não é senão o seio da mulher amada
Que ilumina a cegueira dos homens. Alta, tranqüila e trágica
É essa que eu chamo pelo nome de mulher amada.
Nascitura. Nascitura da mulher amada
É a mulher amada. A mulher amada é a mulher amada é a mulher amada
É a mulher amada. Quem é que semeia o vento? – a mulher amada!
Quem colhe a tempestade? – a mulher amada!
Quem determina os meridianos? – a mulher amada!
Quem a misteriosa portadora de si mesma? A mulher amada.
Talvegue, estrela, petardo
Nada a não ser a mulher amada necessariamente amada
Quando! E de outro não seja, pois é ela
A coluna e o gral, a fé e o símbolo, implícita
Na criação. Por isso, seja ela! A ela o canto e a oferenda
O gozo e o privilégio, a taça erguida e o sangue do poeta
Correndo pelas ruas e iluminando as perplexidades.
Eia, a mulher amada! Seja ela o princípio e o fim de todas as coisas.
Poder geral, completo, absoluto à mulher amada!

Vinicius de Moraes

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Meu coração




Meu coração é um poço de mel,
No centro de um jardim encantado,
Alimentando beija-flores que, depois de prová-lo,
Transforman-se magicamente em cavalos brancos alados
Que voam para longe, em direção à estrela Vega.
Levam junto quem me ama, me levam junto também.
Cascata de champanha,
Púrpura rosa do Cairo,
Verso de Mario Quintana,
Figo maduo, papel crepon,
Cão uivando pra lua, varinha de incenso.
Acesa, aceso
Vasto, vivo:
Meu coração
É teu.

Caio Fernando Abreu

domingo, 23 de outubro de 2011

Sinto

Sinto
que em minhas veias arde
sangue,
chama vermelha que vai cozendo
minhas paixões no coração.

Mulheres, por favor,
derramai água:
quando tudo se queima,
só as fagulhas voam
ao vento.

Federico García Lorca, em 'Poemas Esparsos'
Tradução de Oscar Mendes

ela, por privação,
ele, pelas escolhas,
seguem atordoados pelos caminhos paralelos a beira dos abismos preenchidos.
É uma enseada sem horizontes a vida.