sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

momento num café

Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida.

Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.

Manuel Bandeira

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Puxa! Puxa! Como tudo está tão estranho hoje! E ontem as coisas estavam tão normais! O que será que mudou à noite? Deixe-me ver: eu era a mesma quando acordei de manhã? Tenho a impressão de ter me sentido um pouco diferente. Mas se eu não sou a mesma, a próxima questão é “Quem sou eu?” Ah! esta é a grande confusão!

Lewis Carrol - Alice In Wonderland

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Flores do Mais

devagar escreva
uma primeira letra
escreva
na imediações construídas
pelos furacões;
devagar meça
a primeira pássara
bisonha que
riscar
o pano de boca
aberto
sobre os vendavais;
devagar imponha
o pulso
que melhor
souber sangrar
sobre a faca
das marés;
devagar imprima
o primeiro
olhar
sobre o galope molhado
dos animais; devagar
peça mais
e mais e
mais

AC Cesar


Sobreviver... pelas crianças... pelas crianças

sábado, 16 de janeiro de 2010

AiTi

A história dos afogados nest nau-frágil
Nos corpos um mundo gasto não atravessa a goela
nem é expelido em arrojo.
Casas foram a baixo com nossas poucas fotografias.
Uma boneca e chinelos ensanguentados junto aos que não conseguiram submergir.
Preciso caminhar agora descalço.
Vermes alojados em meus passos.
Meus poucos sonhos de infância
à sorte daqueles que vieram trocar açoite por migalhas no barato mercado de nossas vidas.
Treme sob meus olhos
o fim de um princípio eternamente interrompido.
A alvorada em minutos tão acres quanto aqueles que nos pôs ao chão.
Estão todos mortos...
soterrados...
ou aguardam a morte
que caminha satisfeita entre escombros.
Neste cenário de ruínas,
por que sobreviver?
nossas crianças...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

EM PÉ

Continuo em pé

por pulsar

por costume

por não abrir a janela decisiva

e olhar de uma vez a insolente

morte

essa mansa

dona da espera



continuo em pé

por preguiça nas despedidas

no fechamento e demolição

da memória



não é um mérito

outros desafiam

a claridade

o caos

ou a tortura



continuar em pé

quer dizer coragem



ou não ter

onde cair

morto

mario benedetti

(De A Ras de Sueño, 1967)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Unissoou. Amor renhido, amor crescido. Cousa grande! Vocês dois são o que-não-sei: o tudo, a persistência da lua, apesar das cidades. Umbigo - centro, centro, centro. Umbigo - medida ideal. Havei forte amor! O amor não precisa de memória, não arredonda, não floreia: faz forte estilo. E fim.


João Guimarães Rosa in Ave Palavra