sexta-feira, 18 de maio de 2012
Dois amantes ditosos fazem um só pão,
uma só gota de lua na erva,
deixam andando duas sombras que se reúnem,
deixam um só sol vazio numa cama.
De todas as verdades escolheram o dia.
não se ataram com fios senão com um aroma,
e não despedaçaram a paz nem as palavras.
A ventura é uma torre transparente.
O ar, o vinho vão com os dois amantes,
a noite lhes oferta suas ditosas pétalas,
têm direito a todos os cravos.
Dois amantes felizes não têm fim nem morte,
nascem e morrem muitas vezes enquanto vivem.
têm da natureza a eternidade.
Pablo Neruda
segunda-feira, 7 de maio de 2012
O homem, as viagens
O homem, bicho da Terra tão pequeno
chateia-se na Terra
lugar de muita miséria e pouca diversão,
faz um foguete, uma cápsula, um módulo
toca para a Lua
desce cauteloso na Lua
pisa na Lua
planta bandeirola na Lua
experimenta a Lua
coloniza a Lua
civiliza a Lua
humaniza a Lua.
Lua humanizada: tão igual à Terra.
O homem chateia-se na Lua.
Vamos para Marte — ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em Marte
pisa em Marte
experimenta
coloniza
civiliza
humaniza Marte com engenho e arte.
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro — diz o engenho
sofisticado e dócil.
Vamos a Vênus.
O homem põe o pé em Vênus,
vê o visto — é isto?
idem
idem
idem.
O homem funde a cuca se não for a Júpiter
proclamar justiça junto com injustiça
repetir a fossa
repetir o inquieto
repetitório.
Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira Terra-a-terra.
O homem chega ao Sol ou dá uma volta
só para tever?
Não-vê que ele inventa
roupa insiderável de viver no Sol.
Põe o pé e:
mas que chato é o Sol, falso touro
espanhol domado.
Restam outros sistemas fora
do solar a col-
onizar.
Ao acabarem todos
só resta ao homem
(estará equipado?)
a dificílima dangerosíssima viagem
de si a si mesmo:
pôr o pé no chão
do seu coração
experimentar
colonizar
civilizar
humanizar
o homem
descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
a perene, insuspeitada alegria
de con-viver.
Carlos Drummond de Andrade
sábado, 5 de maio de 2012
Ânsia
Não me deixem tranquilo
não me guardem sossego
eu quero a ânsia da onda
o eterno rebentar da espuma
As horas são-me escassas:
dai-me o tempo
ainda que o não mereça
que eu quero
ter outra vez
idades que nunca tive
para ser sempre
eu e a vida
nesta dança desencontrada
como se de corpos
tivéssemos trocado
para morrer vivendo
Mia Couto, em Raiz de Orvalho e outros poemas
Meu barro
Sofro de lonjuras.
Insisto em buscar o amor atrás do morro.
meu pai bem me disse:
o tamanho do buraco do peito
é a medida dos enlaçamentos.
Tudo começa no berço.
No colo da mão carinhosa
que cavuca na infância o jardim.
Se as panelas são quentes e fartas
Conte que haverá festa
Mesmo para a vida dura.
segunda-feira, 30 de abril de 2012
O resto imortal
Queria
não morrer de todo. Não o meu melhor. Que o melhor de mim ficasse, já que sobre
o além sou todo dúvida. Queria deixar aqui neste planeta não apenas um
testemunho da minha passagem, pirâmide, obelisco, verbetes numa obscura
enciclopédia, campos onde não crescem mais capim.
Queria
deixar meu processo de pensamento, minha máquina de pensar, a máquina que
processa meu pensamento, meu pensar transformado em máquina objetiva, fora de
mim, sobrevivendo a mim.
Durante
muito tempo, cultivei esse sonho desesperado.
Um
dia, intui. Essa máquina era possível.
Tinha
que ser um livro.
Tinha
que ser um texto. Um texto que não fosse apenas, como os demais, um texto
pensado. Eu precisava de um texto pensante. Um texto que tivesse memória,
produzisse imagens, raciocinasse.
Sobretudo,
um texto que sentisse como eu.
Ao
partir, eu deixaria esse texto como um astronauta solitário deixa um relógio na
superfície de um planeta deserto.
Claro
que eu poderia ter escolhido um ser humano para ser essa máquina que pensasse
como eu penso. Bastava conseguir um aluno. Mas pessoas não são previsíveis. Um
texto é.
A
impressão do meu processo de pensamento não poderia estar na escolha das
palavras nem no rol dos eventos narrados. Teria que estar inscrito no próprio
movimento do texto, nos fluxos da sua dinâmica, traduzido para o jogo de suas
manhas e marés.
Um
texto assim não poderia ser fabricado nem forjado. Só poderia ser desejado. Ele
mesmo escolheria, se quisesse, a hora de seu advento.
Tudo
o que eu poderia fazer nessa direção era estar atento a todos os impulsos,
mesmo os mais cegos, nunca sabendo se o texto estava vindo ou não.
Era
óbvio, um texto assim teria, no mínimo, que levar uma vida humana inteira. Na
melhor das hipóteses.
Uma
questão colocou-se desde o início. A tensão da espera de um tal texto poderia
ser o maior obstáculo para seu surgimento. Quanto a isto, não havia solução. A
questão teria que ser vivida em nível de enigma e conflito, sigilo e
dissimulação.
Evidentemente
que o texto que resultasse desse estado deveria, por força, reproduzí-lo em sua
essencial perplexidade. A máquina-texto que surgisse não seria um todo
harmonioso, já que a harmonia só convém às coisas mortas. O que eu pretendia
era uma coisa viva, uma vida que me sobrevivesse. E a vida é contraditória.
Não
sei mais de esse texto virá. Ou se já veio.
Tudo
o que quero é que, se vier, se lembre de mim tanto quanto eu soube desejá-lo.
Paulo
Leminski
terça-feira, 24 de abril de 2012
Ex/plicação
Não há um sentido único
num
poema
quando alguém
começa a ex-
plicá-lo e
chega ao fim
en-
tão só fica o
ex
do ponto de
partida
beco
(tente outra
vez)
sem saída
Haroldo de Campos
domingo, 22 de abril de 2012
Revolução
Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta
como puro inícío
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um povo
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação
Sophia de Mello Breyner Andresen
Como chão varrido
Como porta aberta
como puro inícío
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um povo
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação
Sophia de Mello Breyner Andresen
terça-feira, 17 de abril de 2012
Domina ou cala
Domina ou cala. Não te percas, dando
Aquilo que não tens.
Que vale o César que serias? Goza
Bastar-te o pouco que és.
Melhor te acolhe a vil choupana dada
Que o palácio devido.
Ricardo Reis
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