terça-feira, 13 de outubro de 2009

Tracey Emin


Gigante descansa depois da refeição.
Sequestrou bem rápido a retina da nova mulher que de início esperneou,
mas logo soube divisar a maré das horas inevitáveis e profundas.
No exílio foi possível trocar de calendário, de calcinha e abdômen.
Soberbo, ela não chorou.
Só trouxe suas coisas aos bocados e se instalou no meu armário e ossos.
Trocou o cheiro dos meus sabonetes.

Pela manhã não espera que eu a lamba. Já conta sonhos estranhos.
Desenha minhas narinas do gosto acre de seu hálito vespertino.
Sugere aos meus ouvidos devaneios caramelizados de suas horas de escuridão.
E suas mãos sempre frias nas minhas,
nossas mãos incrivelmente nuas e inocentes agora cativas dessa nova vida.
Inteiras e reféns
E cálice
Onde sou gigante.


segunda-feira, 12 de outubro de 2009



Nesta vida,
pode-se aprender
três coisas
de uma criança:
estar sempre
alegre,
nunca
ficar inativo
e chorar
com força
por tudo
o que se quer.


Paulo Leminski

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Estranheza do Mundo

Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si,
me repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza do mundo,
descubro uma nova beleza
com que me deslumbro:
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto "para quê"?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.

Ferreira Gullar

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Segundo salto



No segundo salto continuo a gritar.
A voz sai grave
quando antes doía no estômago.
Fonoaudiologias da vida permitem que alguns sobrevivam
e tenham pão recheado.

Ora sim ora também sim
tenho absoluta incerteza do traçado definido para o plano de voo
mas gosto das paisagens que minha escrivaninha aponta.
Tem cheiro de gente nova
jeito de coisa velha
promessa de formas diversas de fiar no mundo.

Vontade de dormir, não escapo.
Há lá encantamentos nas fendas da terra
que no ponto de ônibus é difícil visar os perfis.
Cinco horas calado e parado, de quase todos se exige
Em poucos desce como vitamina.
Quebrem tudo, será meu grito contido
Olhem e duvidem
Escrevam na porta de minha última casa

Mas estes são os meus três segundos de sal.
Se tem sol,
prefiro semear com a aldeia desejos de fim de mundo,
que as bandidas aprendam também.
Parece que da minha janela se vê mais vasto
Adoro este cheiro de respiração.
Estranhos, quais são seus passos?
Darei mel de minhas vísceras
a quem me convencer a dormir todos os dias em seus pensamentos
sou madeira fiel às verticais miragens,
minha sina é o chão.
Por mais que a terra escureça,

não esquecer da esperança como concepção de futuro.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Amar uma vez e sempre

Nelson Rodrigues

Kátia Vevel, Rio - A rigor, a sua tragédia não existe: ou só existe de uma maneira muito relativa. O mais importante, o fundamental, você tem: ama e é amado. E se quer obter um mínimo de felicidade, parta, sempre, do seguinte princípio: o verdadeiro amor não pode ser integralmente feliz. Você sabe qual é o grande erro da maioria absoluta das mulheres? Ei-lo: - achar que o fato de amar implica, obrigatoriamente, a felicidade. Quem ama, pensa que vai ser felicíssimo; e estranha qualquer espécie de sofrimento. Ora, a vida ensina, justamente, que duas criaturas que se amam, sofrem, fatalmente. Não por culpa de um ou de outro; mas em conseqüência do próprio sentimento. É exato que os amores têm seus êxtases deslumbrantes, momentos perfeitos, musicais etc. etc. mas eu disse "momentos" e não 24 horas de cada dia.
Quando uma mulher apaixonada se queixa, eu tenho vontade de fazer-lhe esta pergunta: "não lhe basta amar? Você quer, ainda por cima, ser feliz?". Pois o destino quando concede a graça inefável do amor, subtrai uma série de outras coisas. Antes de mais nada, o sossego. Quem ama, não tem sossego, perdeu-o, para sempre. A intensidade de qualquer amor é, por si mesma, trágica. Você, minha doce amiga, escreve: "tenho ciúme de tudo e de todos". E isso já implica num sofrimento incessante e atroz. Mas, acontece uma coisa com os sofrimentos do amor: eles se tornam um hábito, se fazem necessários e, no fim de certo tempo, se incorporam à nossa vida, participam dela, de maneira integral. Sofrer pela criatura amada - permita que lhe diga - não é um mal, é quase um bem. Você conhece tristezas mais lindas, mais inspiradoras, do que as tristezas do amor? Não, não há minha querida amiga. Uma pessoa sensata diria: "são tristezas", ao que eu replicaria: "Mas de amor!". E tristezas desta natureza valem qualquer alegria.Vejamos, porém, concretamente, o seu caso. Você, há tempos, teve uma lesão pulmonar. Não sei se a chamada "peste branca" espanta alguém. A mim, não. Nem doença de espécie alguma. Se há amor, qualquer espécie de enfermidade, ainda as mais atrozes, torna mais doce e mais fortes os vínculos que unem duas criaturas. E mais vale uma lesão pulmonar do que uma lesão de caráter, uma lesão de alma. As únicas doenças que realmente, me assustam são as morais. Durante o seu tratamento, você ficou em uma tal prostração que, digamos, se desinteressou da vida. Foi um mal, cara amiga. Se lhe faltava saúde, sobrava-lhe, no entanto, uma série de outros dons, para merecer a vida e dignificá-la. Mais tarde, quando você ficou boa, encontrou-se acidentalmente, com aquele que seria o seu bem amado. Um olhar, um brevíssimo flirt e este resultado maravilhoso: um amor recíproco e definitivo. Mas sucede que havia uma outra se interpondo entre vocês dois. Uma outra que não fazia o seu bem-amado feliz; que não o compreendia; que não tentava um esforço pela sua felicidade. Ele tinha companhia e era solitário. Ora, não há pior solidão do que estar mal acompanhado. Mais vale o deserto do Saara. Assim, ele encontrou, em você, toda a ânsia, toda a sede de amar. E você o retribuiu, apaixonadamente. Então, começou o que você chama o seu martírio. Você sofria e isso o espantava. Se você tivesse experiência de vida, saberia que o sofrimento, maior ou menor, é inseparável do amor. Impossível amar sem sofrer. E quando não há motivos concretos, a pessoa os inventa. O amoroso, ou amorosa, é, por excelência, fabricante de fantasmas, fabricante de possibilidades sinistras. Chega-se a sofrer por hipóteses as mais remotas, as mais inverossímeis, as mais absurdas. Imaginemos o marido de uma senhora honestíssima. Ele se põe a pensar: - "e se ela, um dia, me trair?". É isto que eu chamo sofrer por hipótese. Você sofreria, Kátia, se a situação fosse outra, e outras as circunstâncias. Contente-se com momentos de felicidade, não queria ser feliz as 24 horas do dia. Não sonhe com uma felicidade que não é compatível com a nossa condição humana.Você me perguntou se deve contar a criatura amada o seu ciúme. Acho que não. E explicarei por quê. Na minha opinião, a grande sabedoria, em amor, consiste em ter o ciúme e escondê-lo, ou , então, dar ao ciúme uma exteriorização muito pouco agressiva, muito pouco truculenta. Ouça, Kátia: não acredite que o seu bem-amado a traia. Mesmo que ele quisesse, não o conseguiria. Ninguém gosta de duas pessoas ao mesmo tempo. Assim como ele é o único homem para você, você é, para ele, a única mulher na face da Terra.

Rosa Tumultuada


sábado, 3 de outubro de 2009







Pérola do mar

Ter você no abraço é como bala de mel,
aveluda o assoalho íngreme e irregular da vida
Tem mistérios que apenas sua existência inaugura:
uma soma com dom de multiplicações.
Só com você desenho sereias orelhudas.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Desaniversário

Um brinde à ausência da celebração dos cinco anos
De nossa carne que não se embaralha mais na fúria de nossas formas tão desiguais de estar no mundo.
No dia de tantas horas, foi a lua que assanhou a memória.
Antes de seu aviso não coube a temperatura de você
Percorri distancias e ideias onde não te vi em nenhum instante
Mas a danada em sua forma plena enche o sangue de hormônio.
Vou beber a madrugada.
Amanhã termino esse poema em construção.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Diz-me o filósofo alemão
“Quanto mais inteligente a mulher, tanto mais se afasta o homem."

Pondera a francesa em meus olhos
“os homens não gostam de mulher-homem, nem de mulher culta, nem de mulher que sabe o que quer: ousadia demais, cultura, inteligência, caráter, assustam-nos”

Socorro, que sina.

Valha-me graça que sou ignorante total ao amar certinho os homens.

Peguei então o bonde para assim tentar andar mais lento.
Tinha homem pendurado no trilho.
Saltei e resolvi andar a pé.
meu passo foi longo
ultrapassou a cadência do apito

E este frio que dorme na solidão dos meus ossos?
Pensamentos que não me deixam ficar só
precipitados nas caldeiras da vida
cozinhando, cozinhado...

Gringo cantando samba é de virar gargalhada.
Hoje recebi duas lágrimas de menina
Espero ter dado as palavras certas.
a vida dói.