sábado, 18 de junho de 2011
MURILOGRAMA A CECÍLIA MEIRELES
Dorme no saltério & na magnólia ,
Dorme no cristal & em Cassiopéia .
Dorme em Cassiopéia & no saltério ,
Dorme no cristal & na magnólia .
O século é violento demais para teus dedos
Dúcteis afeiçoados ao toque dos duendes :
O século, ácido demais para uma pastôra
De nuvens , aponta o revólver aos mansos
Inermes no guaiar & columbrando a paz .
Armamentos em excesso, parquesombras de menos
Se antojam agora ao homem , antes criado
Para dança , alegria & ritmos de paz .
A faixa do céu glauco indica-te serena ,
Acolhe a ode trabalhada , nãogemente
Que ainda quer manter linguagem paralém .
Altas nuvens sacodem as crinas espiando
Teu sono incoativo . A noite vai inoltrada ,
Prepara úsnea de sêda à ságoma da tua lira
Que subjaz no corpo interrompido , diamante
Ahimè ! mortal que os deuses reclamaram .
Dorme em Cassiopéia & no saltério ,
Dorme no cristal & na magnólia .
Roma 1964
quarta-feira, 15 de junho de 2011
MURILOGRAMA A C. D . A .
No meio do caminho da poesia
selva selvaggia
Território adrede
Desarrumado
Onde palavras-feras nos agridem
Encontrei Carlos Drummond de Andrade
esquipático fino
flexível
ácido
lúcido
até o osso .
Armado
De lente compasso
Gramática não-euclidiana
& humour nuclear
Na oficina-laboratório
Itabiromem claroenigmático
Extrai do léxico
Uma lição de coisas .
Enxuto abre o manúbrio
À brisa sarcástica de Minas .
Dorme acordado .
Glossógrafo declancha
Com seus olhos de termômetro
A máquina do mundo da linguagem
Em contacto contraste atrito & rotação
Diurna .
Deflagrando história & semântica
Radiografia o
Desgaste do mundo coisificado .
Destrói o córtex do verbo
Dispara o contexto insólito
Descobre a “obsolescence”
os “rifiuti”
os restos do zero .
Contrapõe às galáxias poetizadas
O inframundo
Antigaláxias da náusea
das fezes
da poeira
do mêdo
Os labirintos íntimos
A paisagem delével do sexo
A paisagem de smog
Os pontapés do amor
A insuportável dor-de-corno
A esquírola de osso do homem .
“Balançando
entre o real e o irreal”,
Investido
Do “solene
sentimento de morte”
O poeta no seu trabalho ácido
Confessando-se
confessa-nos .
E agora, Josés?
Além de Cummings & Pound
Além de Sousândrade
Além de “Noigandres”
Além de “Terceira Feira”
Além de Poesia-Praxis
Além do texto “Isso é aquilo”
Sereis teleguiados ?
Resta a ságoma de Orfeu
Com discurso ou sem .
Sôbre a página aberta
Único campo branco
Drummond fazendeiro da cidade
(Esperamos)
Lançará de nôvo
a semente .
Roma 1965
Murilo Mendes
selva selvaggia
Território adrede
Desarrumado
Onde palavras-feras nos agridem
Encontrei Carlos Drummond de Andrade
esquipático fino
flexível
ácido
lúcido
até o osso .
Armado
De lente compasso
Gramática não-euclidiana
& humour nuclear
Na oficina-laboratório
Itabiromem claroenigmático
Extrai do léxico
Uma lição de coisas .
Enxuto abre o manúbrio
À brisa sarcástica de Minas .
Dorme acordado .
Glossógrafo declancha
Com seus olhos de termômetro
A máquina do mundo da linguagem
Em contacto contraste atrito & rotação
Diurna .
Deflagrando história & semântica
Radiografia o
Desgaste do mundo coisificado .
Destrói o córtex do verbo
Dispara o contexto insólito
Descobre a “obsolescence”
os “rifiuti”
os restos do zero .
Contrapõe às galáxias poetizadas
O inframundo
Antigaláxias da náusea
das fezes
da poeira
do mêdo
Os labirintos íntimos
A paisagem delével do sexo
A paisagem de smog
Os pontapés do amor
A insuportável dor-de-corno
A esquírola de osso do homem .
“Balançando
entre o real e o irreal”,
Investido
Do “solene
sentimento de morte”
O poeta no seu trabalho ácido
Confessando-se
confessa-nos .
E agora, Josés?
Além de Cummings & Pound
Além de Sousândrade
Além de “Noigandres”
Além de “Terceira Feira”
Além de Poesia-Praxis
Além do texto “Isso é aquilo”
Sereis teleguiados ?
Resta a ságoma de Orfeu
Com discurso ou sem .
Sôbre a página aberta
Único campo branco
Drummond fazendeiro da cidade
(Esperamos)
Lançará de nôvo
a semente .
Roma 1965
Murilo Mendes
terça-feira, 14 de junho de 2011
Toque
É TEMPO de ter um amuleto amarelo com um amor bordado dentro
É tempo de cavar as palavras secas no fundo do pescoço
É tempo de descobrir o rubi que você pensa que é uma pedra nos sapatos
É tempo do tempo morto morrer dentro de você
É tempo de nascer o poeta inato que você é
O abismo do ser sozinho fica nos limites das forças
Atravessar por inteiro depende da prática do timoneiro
É desviar o barco por águas claras e maré calma
Pois os limites das forças são as divisas com a alma
Aguenta o barco firme
Aguenta o barco
Com muita calma
Irmão
Você é o juiz que se julgou perdido
Sua própria mão bateu as três marteladas
Pregando a sentença de sua perdição
Existe um oásis em cada um dos lados de teu corpo quadrado
Escolher seja sul seja norte seja leste seja oeste
Adiante deserto e oásis são a mesma coisa
As mesmas partes do caminho andado
Não existe caminho errado
Existe preguiça de continuar pra qualquer um dos lados
segunda-feira, 13 de junho de 2011
Sexo em Moscou
![]() |
| Sára Saudhová |
Quando comecei a passear meus dedos
Pela sua marighelazinha já ficando molhada
Ela teve medo e recuou na resitência:
- Stálin! Stálin!
Mas depois deu uma olhada
Viu meu sputinik pronto a entrar em órbita
Exclamou feliz da vida:
- Que vara! Que vara!
- Que nikita mais krutschev!
Eu era o sessenta
Ela era lunática rainha lunik 9
Me sentia como se estivesse dando um cheque-mate
No próprio Karpov
E por não ser nem fidel e nem castro
Lambi sua rosa de luxemburgo
E a linda bolchevique geminha tesudinha:
- Ai língua de seda,
Maravilhosa,
Me lenine toda, meu bem
Me lenine toda,
Todinha!
Arranhava minhas costas com suas unhas de mil caranguejos
E sussurrava entre beijos:
- Marx! Marx!
E o colchão de molas rangia:
- Mao tse tung! Mao tse tung!
Me chamou de seu tesão
Maiokovsky do sertão
Engels azul do meio dia
Poeta do real
Sua fantasia
Olhou-me nos olhos e disse:
- Tú és o meu Brejnev!
E ficamos por um tempão
Deitados no colchão de neve
E nos amávamos
Esperando o intervalo
Entre uma e outra greve
Trotsky! Ela tinha uma bezerra gregoriana
Que deixava lamarcas
E quando o êxtase atingiu ao seu máximo górki
Quando estava prestes a acontecer um orgasmo dissidente
Sussurou rangendo os dentes
- Chove dentro de mim,
Chove, chove,
Gorbatchev!
domingo, 12 de junho de 2011
Cântico negro
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!
Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus
Aos meus versos que partem para a humanidade.
E não estou alegre nem triste.
Esse é o destino dos versos.
Escrevi-os e devo mostrá-los a todos
Porque não posso fazer o contrário
Como a flor não pode esconder a cor,
Nem o rio esconder que corre,
Nem a árvore esconder que dá fruto.
Ei-los que vão já longe como que na diligência
E eu sem querer sinto pena
Como uma dor no corpo.
Quem sabe quem os lerá?
Quem sabe a que mãos irão?
Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.
Árvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.
Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.
Submeto-me e sinto-me quase alegre,
Quase alegre como quem se cansa de estar triste.
Ide, ide de mim!
Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.
Murcha a flor e o seu pó dura sempre.
Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.
Passo e fico, como o Universo.
Fernando Pessoa
sábado, 11 de junho de 2011
Ascensão
![]() |
| Marc Dumas |
Foi que vi como o adulto é sensato!
Pois como não tomar banho nu no rio entre pássaros?
Como não furar lona de circo para ver os palhaços?
Como não ascender ainda mais até a ausência da voz ?
Ausência da voz é infantia, com t, em latim.)
Lá onde a gente pode ver o próprio feto do verbo -
ainda sem movimento.
Aonde a gente pode enxergar o feto dos nomes -
ainda sem penugens.
Por que não voltar a apalpar as primeiras formas da
pedra. A escutar
Os primeiros pios dos pássaros. A ver
As primeiras coisas do amanhecer.
Como não voltar para onde a invenção está virgem?
Por que não ascender de volta para o tartamudo!
Manuel de Barros
Alguém parado
domingo, 5 de junho de 2011
Votos poéticos
Você, amor, acelera o tantan.
Na primeira estrofe,
caminha-se pelo palco temeroso do novo convite.
Coragem, coragem
Enquanto finas raízes arrepiam camadas mais grossas do coração.
É preciso girar
E vocês giraram.
É preciso suar
e vocês suaram.
É preciso abrir janelas com paisagens de flores, de pedras, de limos,
de paredões e cachoeiras,
de plantas carnívoras e estranhas espécimes em decomposição.
Arrastar sombras que até mesmo retardam os passos em direção.
Mas a largura exata de seus braços,
na segunda estrofe,
ajeitou os versos que aceleram os sonhos dos homens.
Largo na medida necessária da respiração.
Estreito para que ensaiassem as primeiras audições.
Nesse encontro um mundo insistente a crescer.
Um embrião de folhas estendidas para a alameda da paixão.
É quando se fazem ventos, estalos e redemoinhos,
como forças da natureza acertando o então vivido para um único refrão que faz TUM TUM.
Suas florestas em pretéritos acalmados
e colossais promessas debruçadas na cadencia da nova casa.
A boca finalmente liberta para o recomeço.
A terceira estrofe: o mundo grande e pequeno do amor cotidiano.
Se vocês estão aqui hoje
(Não só nessa festa),
mas nessas mãos que se entrelaçam
É porque sobre o caule do tempo, existe um desejo:
Aqui com essa mulher
Aqui com esse homem
Há a coragem do enfrentamento de se caminhar ao lado
Porque você, amor,
aveluda o assoalho íngreme e irregular da vida.
caminha-se pelo palco temeroso do novo convite.
Coragem, coragem
Enquanto finas raízes arrepiam camadas mais grossas do coração.
É preciso girar
E vocês giraram.
É preciso suar
e vocês suaram.
É preciso abrir janelas com paisagens de flores, de pedras, de limos,
de paredões e cachoeiras,
de plantas carnívoras e estranhas espécimes em decomposição.
Arrastar sombras que até mesmo retardam os passos em direção.
Mas a largura exata de seus braços,
na segunda estrofe,
ajeitou os versos que aceleram os sonhos dos homens.
Largo na medida necessária da respiração.
Estreito para que ensaiassem as primeiras audições.
Nesse encontro um mundo insistente a crescer.
Um embrião de folhas estendidas para a alameda da paixão.
É quando se fazem ventos, estalos e redemoinhos,
como forças da natureza acertando o então vivido para um único refrão que faz TUM TUM.
Suas florestas em pretéritos acalmados
e colossais promessas debruçadas na cadencia da nova casa.
A boca finalmente liberta para o recomeço.
A terceira estrofe: o mundo grande e pequeno do amor cotidiano.
Se vocês estão aqui hoje
(Não só nessa festa),
mas nessas mãos que se entrelaçam
É porque sobre o caule do tempo, existe um desejo:
Aqui com essa mulher
Aqui com esse homem
Há a coragem do enfrentamento de se caminhar ao lado
Porque você, amor,
aveluda o assoalho íngreme e irregular da vida.
quarta-feira, 1 de junho de 2011
Embriaga-te
Deve- se estar sempre
bêbado. É a única questão.
A
fim de não se sentir o fardo horrível do tempo,
que
parte tuas espáduas e te dobra sobre a terra.
É
preciso te embriagares sem trégua.
Mas
de quê? De vinho, de poesia ou de virtude?
A
teu gosto, mas embriaga-te.
E
se alguma vez sobre os degraus de um palácio,
sobre
a verde relva de uma vala,
na
sombria solidão de teu quarto,
tu
te encontrares com a embriaguez já minorada ou finda,
peça
ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a
tudo aquilo que gira, a tudo aquilo que voa,
a
tudo aquilo que canta, a tudo aquilo que fala, a tudo aquilo que geme.
Pergunte
que horas são. E o vento, a vaga, a estrela, o pássaro,
o
relógio, te responderão.
É
hora de se embriagar !!!
Para
não ser como os escravos martirizados pelo tempo, embriaga-te.
Embriaga-te
sem cessar. De vinho, de poesia ou de virtude.
A
teu gosto.
Charles
Baudelaire
domingo, 29 de maio de 2011
O fim do mundo
No fim de um mundo melancólico
os homens lêem jornais.
Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol.
Me deram uma maçã para lembrar
a morte. Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene. O véu que olhei voar
caiu no deserto.
O poema final ninguém escreverá
desse mundo particular de doze horas.
Em vez de juízo final a mim me preocupa
o sonho final.
João Cabral de Melo Neto
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