segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Gertrudes Pede um Conselho

Jacek Yerka
 
 



De fato, nos últimos tempos, Tuda não passava nada bem. Ora sentia uma inquietação sem nome, ora uma calma exagerada e repentina. Tinha frequentemente vontade de chorar, e o que em geral se reduzia à vontade apenas, como se a crise se completasse no desejo. Uns dias, cheia de tédio, enervada e triste. Outros, lânguida como uma gata, embriagando-se com os menores acontecimentos. Uma folha caindo, um grito de criança, e pensava: mais um momento e não suportarei tanta felicidade. E realmente não a suportava, embora não soubesse propriamente em que consistia a felicidade. Caía num choro abafado, aliviando-se, com a impressão confusa de que se entregava, a não sei quem e não sei de que forma. Às lágrimas sucedia-se, acompanhando os olhos inchados, um estado de suave convalescença, de aquiescência a tudo. Surpreendia s todos com sua doçura e transparência e, ainda mais, forçava uma leveza de passarinho. Dava esmolas a todos os pobres, com a graça de quem joga flores. De outras vezes, enchia-se de força. Seu olhar tornava-se duro como aço, áspero como espinhos. Sentia que“podia”. Fora feita para “libertar”.

(...)

- Olhe, Tuda, o que me agradaria dizer-lhe é que você um dia terá o que agora procura tão confusamente. É uma espécie de calma que vem do conhecimento de si própria e dos outros. Mas não se pode apressar a vinda desse estado. Há coisas que só se aprende quando ninguém as ensina. E com a vida é assim. Mesmo há mais beleza em descobri-la sozinha, apesar do sofrimento. – A doutora sentiu um súbito cansaço, tinha a impressão de que a ruga nº 3, do nariz os lábios, afundara. Aquela menina fazia-lhe tão mal e ela queria estar de novo só. – Olhe, tenho certeza de que você ainda terá muita felicidade. Os sensíveis são simultaneamente mais infelizes e felizes que os outros. Mas dê um tempo ao tempo! – Como era vulgar com facilidade, refletiu sem amargura. – Vá vivendo… -Sorriu. E de repente Tuda sentiu aquele rosto entrando bem na sua alma. Não era da boca, nem dos olhos que vinha aquele ar… ar divino. Era como uma sombra terrivelmente simpática, vacilando sobre a doutora. E, no mesmo instante, Tuda soube que não mentira, ah, não! Uma alegria, uma vontade de chorar. Ah, ajoelhar-se diante da doutora, esconder o rosto no seu regaço, gritar: é isso que eu tenho, é isso! Só lágrimas! A doutora já não sorria. Pensava. Olhando-a, assim, de perfil, Tuda já não a entendia mais. De novo, uma estranha. Buscou-a depressa, à outra, a divina:- Por que a senhora disse: “o que me agradaria dizer-lhe…”? Então não é a verdade? A menina era mais perspicaz do que pensara. Não, não era a verdade. A doutora sabia que se pode passar a vida inteira buscando qualquer coisa atrás da neblina, sabia também da perplexidade que traz o conhecimento de si própria e dos outros. Sabia que a beleza de descobrir a vida é pequena para quem procura principalmente a beleza nas coisas.

(...)

Clarice Lispector

 

 


Roma




Charles Spencelayh

Sua intenção colonial quer me decifrar. 
Diferente do costume das histórias, 
roma piedosa só conheço quando pregada nos murais dos templos.
A verdade é que seu hábito é implacável com minha carne, 
não vacila em exigir minhas ilusões.
Talvez porque um dia recusei sua promessa romântica,
que não aceita feminina a lâmina o meu punhal,
acena-me, afinal, com suas persistentes gerações de violência
também templos de umbrais altos de onde mouros bordam cordas de éter para enfrentar a queda. 
Não sou um deus, mas me vingo.
Tenho minha ciência. 
Fez-me um poeta lunático a desabrochar. 
Então, não te toco no silêncio, 
Se o fizesse, é possível que só nos restasse pele.
Teríamos todo o verniz corroído pela verdade. 
Sentiríamos terror?
 Paixão?
Isso me provoca dúvidas: 
Tudo o que preciso está sobre seus cacos?
Qual é razão de mostrarmos nossos corpos?
Na quarto por cima de minha existência,
seu jogo é fazer de nossa união uma festa lisérgica.
Durante certo tempo entorpece os gritos de nossos espectros, 
rege habilidosa a orquestra de nossos desejos ímpares.
Mas se não temos tato, 
no escuro, 
as formas que podemos esculpir são a nossa própria fotografia.
o que a memória evoca são liberdades borradas.
Nosso olhar sempre nos persegue
Está certo.
Confesso, 
estou sendo puritano. 
É crível o sol aparecer
É possível buscar a melhor forma de estar no mundo.
Em horas amenas encontrar-se atemorizado com o outro nas bordas de pelejas gigantes.
Cada um em sua margem. 
Sem telescópio. Sem microscópio. Só bandeiras.
Ousadas línguas humanas a escalar Olimpos de vontade. 
Movidos da intuição de que não nascemos sésseis. 
De que ali, bem aqui,
 não há impérios
São serranias fantásticas que nos restituirão o passo
e no outro passo (e não no outro)
nossa deidade adocicada.









Me lembro de ficar super concentrada e morder a boca
e tentar acompanhar a sequência toda sem me perder nem um minuto.
Eu lia assim, com sotaque
"go, go, go, said the
bird,
human kind cannot bear
very much on reality..."

Eu procurava as chaves, a questão pendente
atravessava a luz deserta da praia de cabo a rabo, de vestido
voltava sobre os meus próprios passos, ficava na varanda
atravessava os dias como uma planta perdida no deserto
naquele sol mais quieta. “Aqui eu te conheço”.
Eu não sabia que sabia, aquela planta
a pauta se calasse... Ouvia: “se você dançar...”
Só de memória me espanto, de cabeça caio e saio, de cor, e pronto
socorram-me então nesse esforço de raízes
ouvindo a chuva nas telhas de menos dessa casa escura
com goteiras de verão e falta dágua, sem transporte
descendo a estrada de pó nas sandálias havaianas
fazendo uma bolha no calor, um lanho rubro, repetindo.
“Ana, na janela tem um recadinho”, chegando, lendo...
"Tive que correr para pegar o posto aberto" um curativo aberto, um sanduíche aberto, um fantasma romântico no peito
“se você dançar..."
Me lembro da rádio a mil dentro do carro,
e de uma saudade inata.

CESAR, Ana Cristina. Aí é que são elas. In: Inéditos e dispersos.

 

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Agro-tóxico

gianluca.foli

Quando os tomates 
duram mais de três semanas 
na geladeira,
Alguma coisa está fora da ordem natural.

domingo, 23 de setembro de 2012

Biblioteca verde


Papai, me compra a Biblioteca Internacional de Obras Célebres.
São só 24 volumes encadernados
Em percalina verde.
Meu filho, é livro demais para uma criança.
Compra assim mesmo, pai, eu cresço logo.
Quando crescer eu compro. Agora, não.
Papai, me compra agora. É em percalina verde,
Só 24 volumes. Compra, compra, compra.
Fica quieto, menino, eu vou comprar.

Rio de Janeiro? Aqui é o coronel.
Me mande urgente sua Biblioteca
Bem acondicionada, não quero defeito.
Se vier com arranhão recuso, já sabe:
quero devolução de meu dinheiro.
Está bem, Coronel, ordens são ordens.
Segue a Biblioteca pelo trem-de-ferro,
Fino caixote de alumínio e pinho.
Termina o ramal, o burro de carga
Vai levando tamanho universo.

Chega cheirando a papel novo, mata
de pinheiros toda verde. Sou
o mais rico menino destas redondezas.
(Orgulho, não; inveja de mim mesmo.)
Ninguém mais aqui possui a coleção
das Obras Célebres. Tenho de ler tudo.
Antes de ler, que bom passar a mão
no som da percalina, esse cristal
de fluida transparência: verde, verde.
Amanhã começo a ler. Agora não.

Agora quero ver figuras. Todas.
Templo de Tebas. Osíris, Medusa,
Apolo nu, Vênus nua... Nossa
Senhora, tem disso nos livros?
Depressa, as letras. Careço ler tudo.
A mãe se queixa: Não dorme este menino.
O irmão reclama: Apaga a luz, cretino!
Espermacete cai na cama, queima
a perna, o sono. Olha que eu tomo e rasgo
essa Biblioteca antes que pegue fogo
na casa. Vai dormir, menino, antes que eu perca
a paciência e te dê uma sova. Dorme,
filhinho meu, tão doido, tão fraquinho.

Mas leio, leio. Em filosofias
tropeço e caio, cavalgo de novo
meu verde livro, em cavalarias
me perco, medievo; em contos, poemas
me vejo viver. Como te devoro,
verde pastagem. Ou antes carruagem
de fugir de mim e me trazer de volta
à casa a qualquer hora num fechar
de páginas?

Tudo que sei é ela que me ensina.
O que saberei, o que não saberei
Nunca,
está na Biblioteca em verde murmúrio
de flauta-percalina eternamente.

Carlos Drummond de Andrade


Esta gente



Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco 

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis 

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome 

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada 

Meu canto se renova
E recomeço a busca
Dum país liberto
Duma vida limpa
E dum tempo justo 

Sophia de Mello Breyner Andresen

sábado, 22 de setembro de 2012

Improviso


Cecília, és libérrima e exata
Como a concha.
Mas a concha é excessiva matéria,
E a matéria mata.

Cecília, és tão forte e tão frágil
Como a onda ao termo da luta.
Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta.

Cecília, és, como o ar,
Diáfana, diáfana.
Mas o ar tem limites:
Tu, quem te pode limitar?

Definição:
Concha, mas de orelha:
Água, mas de lágrima;
Ar com sentimento.
- Brisa, viração
Da asa de uma abelha
 
Manuel Bandeira

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Poema XIII

João Roberto Ripper

Não me procures ali
Onde os vivos visitam
Os chamados mortos.
Procura-me
Dentro das grandes águas
Nas praças
Num fogo coração
Entre cavalos, cães,
Nos arrozais, no arroio
Ou junto aos pássaros
Ou espelhada
Num outro alguém,
Subindo um duro caminho
Pedra, semente, sal
Passos da vida. Procura-me ali.
Viva.

Hilda Hilst

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Elegia

Rogerio Fernandes


Teu sorriso se abriu como uma anêmona
entre as covinhas do rosto infantil.
Estavas de pijama verde,
nas almofadas verdes,
os pezinhos nus, as pernas cruzadas,
pequenina,
como um ídolo de jade
que teve por modelo uma princesa anamita.
Tuas mãos sorriam,
teus olhos sorriam,
o liso dos teus cabelos pretos sorria,
e mesmo me sorriste,
e foi a única vez...

Não pude calçar, com beijos os teus pezinhos,
e não pudeste caminhar para mim...
Mas é bem assim que os meus sonhos se possuem.

João Guimarães Rosa

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Fundo do Mar

Rafael de Penedos
No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.



Sophia de Mello Breyner

domingo, 2 de setembro de 2012

Raízes


 Uma vez um homem deitou-se, todo, em cima da terra. A areia lhe servia de almofada. Dormiu toda a manhã e quando se tentou levantar não conseguiu. Queria mexer a cabeça: não foi capaz. Chamou pela mulher e pediu-lhe ajuda.
- Veja o que me está a prender a cabeça.
A mulher espreitou por baixo da nuca do marido, puxou-lhe levemente pela testa. Em vão. O homem não...
desgrudava do chão.
- Então, mulher? Estou amarrado?
- Não, marido, você criou raízes.
- Raízes?
Já se juntavam as vizinhanças. E cada um puxava sentença. O
homem, aborrecido, ordenou à esposa:
- Corta!
- Corta, o quê?
- Corta essa merda das raízes ou lá o que é...
A esposa puxou da faca e lançou o primeiro golpe. Mas logo parou. - Dói-lhe?
- Quase nem. Porquê me pergunta?
- É porque está sair sangue.
Já ela, desistida, arrumara o facão. Ele, esgotado, pediu que alguém
o destroncasse dali. Me ajudem, suplicou. Juntaram uns tantos, gentes da terra. Aquilo era assunto de camponês. Começaram a escavar o chão, em volta. Mas as raízes que saíam da cabeça desciam mais fundo que se podia imaginar. Cavaram o tamanho de um homem e elas continuavam para o fundo. Escavaram mais que as fundações de uma montanha e não se vislumbrava o fim das radiculações.
- Me tirem daqui, gemia o homem, já noite.
Revezaram-se os homens, cada um com sua pá mais uma enxada. Retiraram toneladas de chão, vazaram a fundura de um buraco que nunca ninguém vira. E laborou-se semanas e meses. Mas as raízes não só não se extinguiam como se ramificavam em mais redes e novas radículas. Até que já um alguém, sabedor de planetas, disse:
- As raízes dessa cabeça dão a volta ao mundo.
E desistiram. Um por um se retiraram. A mulher, dia seguinte, chamou os sábios. Que iria ela fazer para desprender o homem da inteira terra? Pode-se tirar toda a terra, sacudir as remanascentes areias, disse um. Mas um outro argumentou: assim teríamos que transmudar o planeta todo inteiro, acumular um monte de terra do tamanho da terra. E o enraizado, o que se faria dele e de todas suas raízes? Até que falou o mais velho e disse:
- A cabeça dele tem que ser transferida.
E para onde, santos deuses? Se entreolharam todos, aguardando pelo parecer do mais velho.
- Vamos plantar a cabeça dele lá!
E apontou para cima, para as celestiais alturas. Os outros devolveram a estranheza. Que queria o velho dizer?
- Lá, na lua.
E foi assim que, por estreia, um homem passou a andar com a cabeça na lua. Nesse dia nasceu o primeiro poeta.

 Mia Couto, Contos do nascer da Terra