terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Memorándum
Um chegar e incorporar-se o dia
Dois respirar para subir a ladeira
Três não jogar-se em uma só aposta
Quatro escapar da melancolia
Cinco aprender a nova geografia
Seis não ficar-se nunca sem a sesta
Sete o futuro não será uma festa e
Oito não assustar-se ainda
Nove vai a saber quem é o forte
Dez não deixar que a paciência ceda
Onze cuidar-se da boa sorte
Doze guardar a última moeda
Treze não tratar-se com a morte
Catorze desfrutar enquanto se pode.
Mario Benedetti
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
Dois respirar para subir a ladeira
Três não jogar-se em uma só aposta
Quatro escapar da melancolia
Cinco aprender a nova geografia
Seis não ficar-se nunca sem a sesta
Sete o futuro não será uma festa e
Oito não assustar-se ainda
Nove vai a saber quem é o forte
Dez não deixar que a paciência ceda
Onze cuidar-se da boa sorte
Doze guardar a última moeda
Treze não tratar-se com a morte
Catorze desfrutar enquanto se pode.
Mario Benedetti
(Tradução de Maria Teresa Almeida Pina)
domingo, 20 de dezembro de 2009
Uma furtiva lágrima
O mar insensivelmente
azul engolindo-o
O
sol ardentemente vermelho marcando-o
A
terra secamente laranja cortando-o
O
ar friamente cinza invadindo-o
O
mundo assustadoramente belo
O
mundo maravilhosamente estranho
Um
muro e a casa do vizinho
O
homem bem velhinho que cultivava goiabas
Ali
no alto, senhor de tão magnífica paisagem
Sentei-me
e chorei
A
mulher languidamente sedutora
O
irmão estendendo a mão
O
pai olhando em silêncio
A
mãe falando incessantemente
As
pessoas me dizendo e eu nada entendendo
Um
muro e a casa do vizinho
O
homem bem velhinho que falava com as plantas e insetos
Ali
no alto, amando em silêncio
Sentei-me
e chorei
A
cidade tão incrivelmente iluminada
A
movimentada avenida
O
estádio lotado
O
prédio prateado sem fim de tão alto
As
construções mirabolantes na cidade ruidosa
A
miséria e a fome ao redor
Um
muro e a casa do vizinho
O
homem bem velhinho que reparava sua cerca e alimentava o vira-lata
[da
rua]
Sentado
no muro eu consertava o mundo e chorava
O
corpo ardendo em febre
O
ouvido doendo de tanto escutar
O
nariz conflitadamente entupido
Os
músculos irritadamente doloridos
Na
pele as marcas da sobrevivência de um ser vivo
Um
muro e a casa do vizinho
O
homem bem velhinho que cuidava de sua doente esposa
No
alto do muro eu inventava medicinas e chorava
Num
belo dia de outono
Os
passarinhos cantavam timidamente
E
o sol acariciava com delicadeza a tez
Nesse
dia comumente singelo
Decidi
não apenas sentar-me no muro
Queria
ficar mais alto, conhecer mais, fazer mais
Foi
quando escorreguei
Caí,
o joelho sangrou, eu acordei
Estava
do outro lado do muro
E
o vizinho homem bem velhinho
Ajudou-me
a cuidar da ferida
Ele
me disse com amor: a gente levanta para cair de novo.
Deu-me
um beijo e uma goiaba
Contou-me
que sua mulher chamava-se Maria e há anos não mais falava
Contou-me
que em idos tempos adorava sentar-se naquele muro e
[sonhar]
Depois
me disse com olhar profundo: já sabes o segredo
“Nada
é melhor do que sonhar”
Choramos
juntos e nos abraçamos.
No
dia seguinte
Sentei-me
no muro, olhei tudo o que já havia visto antes
Dominei
a beleza do mundo
Inventei
medicinas
Amei
as mais belas mulheres
Liderei
os homens na luta por um mundo melhor
Havia
uma cicatriz no meu joelho
E,
apesar dos olhos tristes
Não
chorei, afinal
Era
apenas um garoto sentado no alto do muro, sonhando
O
vizinho saiu a varanda
Olhou-me
com amor
Fiquei
de pé e gritei corajoso: o senhor me ajudou a não ter mais medo!
Agora,
já posso sonhar sem chorar!
O
velhinho entrou rapidamente, pois queria esconder uma lágrima...
(Extraída
de PEYON, E. Pequenas Conchinhas. Rio de Janeiro: Papel Virtual Ed., 2004)
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
A UMA PASSANTE
![]() |
A rua em derredor era um
ruído incomum.
Longa,
magra, de luto e na dor majestosa,
Uma
mulher passou e com a mão faustosa
Erguendo,
balançando o festão e o debrum;
Nobre
e ágil, tendo a perna assim de estátua exata.
Eu
bebia perdido em minha crispação
No
seu olhar, céu que germina o furacão,
A
doçura que embala e o frenesi que mata.
Um
relâmpago e após a noite! - Aérea beldade,
E
cujo olhar me fez renascer de repente,
Só
te verei um dia e já na eternidade?
Bem
longe, tarde, além, jamais provavelmente!
Não
sabes meu destino, eu não sei aonde vais,
Tu
que eu teria amado - e o sabias demais!
Baudelaire
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Canção Amiga
Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
Drummond
Em Novos Poemas
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.
Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.
Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.
Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.
Drummond
Em Novos Poemas
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
![]() |
| Richard Avedon |
Difícil isto do ser
poético:
Tem
dias que nossa veia se esvai,
Vazando
um sem número de palavras
Que
não se encaixam nem se falam.
(antes
fossem mosaicos)
Para
formar, num repente,
Um
imenso tecido de branco papel.
Então...
As
velas da prosa se inflam,
Sopradas
pelos ventos do drama,
Singrando
os mares do sentido...
Rumo
à terra das histórias bem contadas,
Onde
todos os finais se encontram.
Rodrigo
Soprana
domingo, 13 de dezembro de 2009
quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
Trenzinho Caipira
Lá vai o trem com o menino
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra
Vai pela serra
Vai pelo mar
Cantando pela serra o luar
Correndo entre as estrelas a voar
no ar, no ar...
Heitor Villa Lobos
Lá vai a vida a rodar
Lá vai ciranda e destino
Cidade e noite a girar
Lá vai o trem sem destino
Pro dia novo encontrar
Correndo vai pela terra
Vai pela serra
Vai pelo mar
Cantando pela serra o luar
Correndo entre as estrelas a voar
no ar, no ar...
Heitor Villa Lobos
quarta-feira, 9 de dezembro de 2009
De amor e de Morte
Na janela de casa
aprendi pequena a Beber do meu abismo
Deve ser leve perdoar os
humores frígidos
Faço do tédio o balde
que recolhe as gotas que caem do telhado.
Sempre Chove enquanto
estou sonhando, milímetros ultrapassam
Em torno do tempo ursos
polares com drinks derretidos se reúnem
O rei permanece fumando
seus cigarros.
Entre olhos tumultuados
a dor da vida em cor violeta.
Viver é tão cão e neve.
inevitável Amor?
Celebremos os
Hexacampeões.
Ao invés de compras,
caso na porta de casa
com bailarinos e poetas,
aqueles que fazem rir e
que deixam espaço na cama.
Mais tarde, falar todos
os dias com mamãe.
temperar suas dores com
as palavras doces que guardo na cesta de frutas.
Essa pele permeável
ainda me sufoca,
vou me esconder atrás da
porta.
Encenar um homicídio,
serão poupadas as
crianças e os girassóis.
Que o resto da bicharada
vá compor sambas de despedida.
Serão felizes os poetas?
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
MURILOGRAMA A RIMBAUD
Inventa.
Excede do século.
Porta a partitura do caos.
Blouson noir / beat / arrabbiato:
Duro. Ar vermelho. Górgone.
Orientaliza o Ocidente.
Barcobêbedo. Anarqlúcido.
O céu-elétrico-no Índex.
Fixa a vertigem, silêncios.
Dioscuro, exclui o Oscuro.
Abole Musset, astro ociduo.
Refratário. Ambíguo. Fálico.
Osíris de T e açoite.
Canta: retira-se a flauta.
“Merveilleux”: lê “merdeilleux”.
Desdá. Desintegra.
Adenta.
Consonantiza as vogais.
Perpetuum móbile.
Médium.
Ignirouba.
Se antecede.
Morre a jato: se ultrapassa.
Desdiz a noite compacta.
Autovidente & do cosmo.
Além do signo e do símbolo.
A idéia do Dilúvio senta-se.
Murilo Mendes
Excede do século.
Porta a partitura do caos.
Blouson noir / beat / arrabbiato:
Duro. Ar vermelho. Górgone.
Orientaliza o Ocidente.
Barcobêbedo. Anarqlúcido.
O céu-elétrico-no Índex.
Fixa a vertigem, silêncios.
Dioscuro, exclui o Oscuro.
Abole Musset, astro ociduo.
Refratário. Ambíguo. Fálico.
Osíris de T e açoite.
Canta: retira-se a flauta.
“Merveilleux”: lê “merdeilleux”.
Desdá. Desintegra.
Adenta.
Consonantiza as vogais.
Perpetuum móbile.
Médium.
Ignirouba.
Se antecede.
Morre a jato: se ultrapassa.
Desdiz a noite compacta.
Autovidente & do cosmo.
Além do signo e do símbolo.
A idéia do Dilúvio senta-se.
Murilo Mendes
Assinar:
Postagens (Atom)








