Será o poeta um fingidor?
Como nem ele alcança a necessária medida dos nervos?
Será que imagina suas lágrimas ou enlouquece?
Respostas são bem vindas.
Eu não aguento e as procuro em Pessoa.
Mas ele está dormindo. Não responde. Ou não me escuta.
Provavelmente, finge, como o bom poeta que é.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Horas escuras desta única noite que se revela.
Adiantando os olhos ao longe parece que se cala o cerrado.
Enquanto que a vista, nati-ausente, desbota o mato, bicho e pedras.
Morto estará o cerrado ou este corpo parado?
Ninguém responde. Ninguém nunca responde.
Também não há palavras exatas que contentem respostas tolas a bilhões de orelhas e olhos.
Nunca basta o chão e o coração.
Sempre é preciso mais lenha para queimar o alimento e esquentar a casa.
Não deve faltar infinita água para banhar a faringe e a calçada.
Moeda que não é pão.
Mas nesta noite insone parece que algo atinge o canto esquerdo do peito de uma única criança.
Calada, ela sente que talvez haja esperança para aquele carvoeiro jurado de frio machado
ou
para aquelas pedras cansadas na beirola do rio.
Quem sabe estas horas escuras não findem
ou
não nasçam mais calangos, chichás e micróbios.
Assim, rompendo uma antiga aliança
faz-se desta noite uma eterna noite
Um não ser mais de um sempre.
Quem sabe, assim, como crianças voltemos para cama
e descansemos um pouco.
Adiantando os olhos ao longe parece que se cala o cerrado.
Enquanto que a vista, nati-ausente, desbota o mato, bicho e pedras.
Morto estará o cerrado ou este corpo parado?
Ninguém responde. Ninguém nunca responde.
Também não há palavras exatas que contentem respostas tolas a bilhões de orelhas e olhos.
Nunca basta o chão e o coração.
Sempre é preciso mais lenha para queimar o alimento e esquentar a casa.
Não deve faltar infinita água para banhar a faringe e a calçada.
Moeda que não é pão.
Mas nesta noite insone parece que algo atinge o canto esquerdo do peito de uma única criança.
Calada, ela sente que talvez haja esperança para aquele carvoeiro jurado de frio machado
ou
para aquelas pedras cansadas na beirola do rio.
Quem sabe estas horas escuras não findem
ou
não nasçam mais calangos, chichás e micróbios.
Assim, rompendo uma antiga aliança
faz-se desta noite uma eterna noite
Um não ser mais de um sempre.
Quem sabe, assim, como crianças voltemos para cama
e descansemos um pouco.

Alice continuou:
“Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para sair daqui?”
“Isso depende bastante de onde você quer chegar”, disse o Gato.
“O lugar não me importa muito...”, disse Alice.
“Então não importa que caminho você vai tomar”, disse o Gato.
“...desde que eu chegue a algum lugar”, acrescentou Alice em forma de explicação.
“Oh, você vai certamente chegar a algum lugar”, disse o Gato, “se caminhar bastante”.
(...)
"Mas eu não quero me encontrar com gente louca", observou Alice.
" Você não pode evitar isso", replicou o gato.
"Todos nós aqui somos loucos. Eu sou louco, você é louca".
"Como você sabe que eu sou louca?" indagou Alice.
"Deve ser", disse o gato, "Ou não estaria aqui".
terça-feira, 18 de agosto de 2009

Deus disse: vou ajeitar você a um dom.
Vou pertencer você para uma árvore.
E pertenceu-me.
Escuto o perfume dos rios.
Sei que a voz das águias tem sotaque azul.
Sei botar cílio nos silêncios.
Para encontrar o azul eu uso pássaros.
Só não desejo cair em sensatez.
Não quero a boa razão das coisas.
Quero o feitiço das palavras.
Manoel de Barros
sábado, 15 de agosto de 2009
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| Josef Hoflehner |
Começa na estrada de ladeira
Depois na casa Calunga
Banha no abismo e prossegue
Candombá
Carvoeiro
Jatobá
Chapéu de Coro
Canela d'Ema,
tanto mais torto
tanto mais curto.
Até a vista avistar
a janela de cachoeira
Salto do garimpão solapa
a água nas pedras
e nasce a melindrar
no Rio Preto
Nós, Humildes quânticas criaturas
a se abrigar da chuva
a se amar nas pedras
Lembre-se de evitar de urinar nas pedras.
Território de onça.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
terça-feira, 4 de agosto de 2009
![]() |
| Foto: Nelson Yoneda |
Pintaram o céu de Goiás de cinza.
Desta arte molhou-se o chão, a rocha, o mato.
Do chão molhado infiltrou a água que fez poça e nascente.
A água da rocha banhou-se em cachoeira e do mato esverdeou o torto cerrado.
Murici deu fruto.
Palipalan se preparou para o acasalamento.
Capim estrelou no campo junto com gramíneas e ciperáceas.
Nem pássaro preto ou maritraca ou pato selvagem ou siriema entoou na invernada.
Pássaro espera a breve estiagem,
homem igual espera,
enquanto que o cerrado acumula,
brota,
agradece.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
... e eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava, que somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria - e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, então o castigo é amar um mundo que não é ele. É porque também me ofendo à toa. É também porque precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. (...) Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes eu me acho de amor inocente. (...) Talvez eu tenha que chamar de "mundo" este meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza?
Clarice Lispector em Felicidade Clandestina
domingo, 2 de agosto de 2009
sexta-feira, 31 de julho de 2009
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Palavras pequenas, amor, de noite saltam aos meus gemidos.
Gentis são as seivas que escalam das nossas flores úmidas e desiguais.
Tanto amor em infinito de pontos
que desenha o mundo fraterno de nossos corpos,
antes da vergonha mordida na fruta do paraíso.
Como em um encanto: o dia fala
Como em um canto: a noite ampara o necessário caminho que a humanidade precisa encontrar
Amor, quartzo escondido no meu estômago insone.
Amor, oferenda de meus olhos para nossas caminhadas solitárias.
Sua esmeralda está em minha boca, eternamente preciosa.
Eu no chão,
Talvez segredo,
Sussurro tácito.
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