domingo, 10 de março de 2013

A Coisa Pública e a Privada





Entre a coisa pública
e a privada
achou-se a República
assentada.

Uns queriam privar
da coisa pública,
outros queriam provar
da privada,
conquanto, é claro,
que, na provação,
a privada, publicamente,
parecesse perfumada.

Dessa luta intestina
entre a gula pública e a privada
a República
acabou desarranjada
e já ninguém sabia
quando era a empresa pública
privada pública
ou
pública privada.

Assim ia a rês pública: avacalhada
uma rês pública: charqueada
uma rês pública, publicamente
corneada, que por mais
que lhe batessem na cangalha
mais vivia escangalhada.

Qual o jeito?
Submetê-la a um jejum?
Ou dar purgante à esganada
que embora a prisão de ventre
tinha a pança inflacionada?

O que fazer?
Privatizar a privada
onde estão todos
publicamente assentados?
Ou publicar, de uma penada,
que a coisa pública
se deixar de ser privada
pode ser recuperada?

— Sim, é preciso sanear,
desinfetar a coisa pública,
limpar a verba malversada,
dar descarga na privada.

Enfim, acabar com a alquimia
de empresas públicas-privadas
que querem ver suas fezes
em ouro alheio transformadas.


SANT'ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 1987. Poema integrante da série Aprendizagem de História











Que País É Este?




Tracy Emin


1
Uma coisa é um país,
outra um ajuntamento.

Uma coisa é um país,
outra um regimento.

Uma coisa é um país,
outra o confinamento.

Mas já soube datas, guerras, estátuas
usei caderno "Avante"
— e desfilei de tênis para o ditador.
Vinha de um "berço esplêndido" para um "futuro radioso"
e éramos maiores em tudo
— discursando rios e pretensão.

Uma coisa é um país,
outra um fingimento.

Uma coisa é um país,
outra um monumento.

Uma coisa é um país,
outra o aviltamento.

(...)

2

Há 500 anos caçamos índios e operários,
há 500 anos queimamos árvores e hereges,
há 500 anos estupramos livros e mulheres,
há 500 anos sugamos negras e aluguéis.

Há 500 anos dizemos:
que o futuro a Deus pertence,
que Deus nasceu na Bahia,
que São Jorge é que é guerreiro,
que do amanhã ninguém sabe,
que conosco ninguém pode,
que quem não pode sacode.

Há 500 anos somos pretos de alma branca,
não somos nada violentos,
quem espera sempre alcança
e quem não chora não mama
ou quem tem padrinho vivo
não morre nunca pagão.

Há 500 anos propalamos:
este é o país do futuro,
antes tarde do que nunca,
mais vale quem Deus ajuda
e a Europa ainda se curva.

Há 500 anos
somos raposas verdes
colhendo uvas com os olhos,

semeamos promessa e vento
com tempestades na boca,

sonhamos a paz da Suécia
com suíças militares,

vendemos siris na estrada
e papagaios em Haia,

senzalamos casas-grandes
e sobradamos mocambos,

bebemos cachaça e brahma
joaquim silvério e derrama,

a polícia nos dispersa
e o futebol nos conclama,

cantamos salve-rainhas
e salve-se quem puder,

pois Jesus Cristo nos mata
num carnaval de mulatas.

(...)


Publicado no livro Que país é este? e outros poemas (1980).

In: SANT'ANNA, Affonso Romano de. A poesia possível. Rio de Janeiro: Rocco, 198


quarta-feira, 6 de março de 2013

Caiu um Forte





Quando um comandante cai, 
É preciso chorar como a um parente próximo.
É preciso compartilhar sua voz
É preciso consolar a humanidade.
Para o povo da Venezuela... 
sua vontade...
Nada menos do que sua vontade.

segunda-feira, 4 de março de 2013




Devemos ser como o rio,
Que é providência da terra:
Bendito aquele que é forte,
E desconhece o rancor,
E, em vez de servir a morte,
Ama a Vida, e serve o Amor!

Olavo Bilac

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Gente



Sabe do que eu gosto?

De gente que diz que gosta de você...

Gente que vive perto

ou

gente que acaba de te conhecer.



Gosto de gente que não economiza no carinho.

Que sabe abraçar, beijar ou apertar a mão com calor.



Gosto de gente que sabe dar parabéns...

Mais do que isso...que curte dar parabéns.



Eu também gosto de gente que tem papo reto...

Que não esconde e não mente...



De gente que sabe dar colo...

Nem precisa pedir e está lá um colo companheiro.



Enfim, eu gosto é de gente!




domingo, 24 de fevereiro de 2013

Levante-se

Ricardo Beliel


Que espécie de lugar é esse que não cultiva o coração de onça

a mão de afeição

e a estúpida vontade de rasgar o império.

Pegue sua canoa e vai dar um rolé.

O mundo é bem mais complexo que a novela das seis.


Mais belo inclusive que a Patrícia Pilar. 


O Infante



Deus quer, o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse toda uma,
que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,

E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.

Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal!

Fernando Pessoa, Mensagem (1934)

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Definição

Basquiat
1

Um corpo não é um fruto,
embora em tudo se assemelhem:
densa forma,
oculto gosto,
cinco letras
e um pressuposto
poder de vida.

Um corpo é mais que um fruto
que se plante,
que se colha
ou se degluta:

um corpo
é um corpo,
e um corpo
é luta.

Um corpo não é um potro,
embora assim se manifeste:
pêlos mansos,
membros ágeis,
sal na boca
e um desejo
verde pelos campos.

Um corpo é mais que um potro
que pelos prados
e currais se dome:
um corpo
é um corpo,
e um corpo
é fome.

Nem chama
que se anule,
nem espada
em duplo gume
ou máquina
de estrume.

Um corpo
é mais que tudo:
mais que a chave,
mais que a forma,
mais que o leme,
mais que o açude.

Um corpo
é mais que tudo:
é a própria imagem
que eu não pude.

2

O corpo é onde
é carne:

O corpo é onde
há carne
e o sangue
é alarme.

O corpo é onde
é chama:

O corpo é onde
há chama
e a brasa
inflama.

O corpo é onde
é luta:

O corpo é onde
há luta
e o sangue
exulta.

O corpo é onde
é cal:

O corpo é onde
é cal:

O corpo é onde
há cal
e a dor
é sal.

O corpo
é onde
e a vida
é quando.

Affonso Romano de Sant'Anna





Amores impossíveis



Amores impossíveis são mais doces ou azedos?
Amores impossíveis não amadurecem, 
são sempre aquela fruta vermelha desenhada no pé.
Suculenta, adocicada e de perpétua força curiosa.
Intocada pelos germes da ação cotidiana do “ser com”,
Não invade nem negocia.
Não desilude nem se arrepende.
Não esconde nem chora.

Amores impossíveis não germinam, 
são como a fruta egoísta sem semente.
Solitária, ameaçada e de aspecto pequeno.
Desumanizada da mão cotidiana do “ser com”,
Não atende nem afaga.
Não compartilha nem apoia.
Não revela e nem chora junto.

Amores impossíveis são mais doces ou azedos?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Secreta



Acelera em direção ao mar.
É lá onde estão os espelhos.
As sombras do vestido.
Há ondas, eu sei.
Mas são apenas os botões que os peixes desabotoam.
Sem desejos não é possível respirar,
seja em terra firme.
Vale a pena, submergir
arrastar sereias
e voltar para casa.


O mar é uma cordilheira
vou lá todas as noites me rasgar em alguns sonhos

Quando o mar chorar
serei esse pote azul de purpurina

que costura minha fantasia.


Serei, então, da cor do mar.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

 
 
é vitalício: comer a Vida
deitando-a entontecida
sobre o linho do idioma.

Nesse leito transverso
dispo-a com um só verso.

Até chegar ao fim da voz.

Até ser um corpo sem foz.

Mia Couto