Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de.
Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer.
Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente.
Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita fui a criadora de minha própria vida.
Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi.
E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito,
mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteira, com a alma também.
Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.
Clarice Lispector em Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres.
terça-feira, 4 de maio de 2010
segunda-feira, 3 de maio de 2010
O mundo em que vivemos, talvez seja um mundo de aparências. A espuma de uma realidade mais profunda que escapa ao tempo, ao espaço, a nossos sentidos e a nosso entendimento. Mas, nosso mundo da separação, da disperção, da finitude, significa também o mundo da atração, do reencontro, da exaltação. E estamos plenamente imersos nesse mundo que é o de nossos sentimentos, felicidades e amores. Não experimentá-lo, é evitar o sentimento, mas também não haverá o gozo. Quanto mais estamos aptos a felicidade, mais nos aproximamos da infelicidade…
“A infelicidade caminha lado a lado com a felicidade, a felicidade dorme ao pé da infelicidade.”
significa que ao abrir nosso coração abrimos pra tudo, porque no fim tudo valeu!
“Se o amor expressa o ápice supremo da sabedoria e da loucura, é preciso assumir o amor.”
Clarice Lispector em Água Viva
Lucidez Perigosa
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| Lillian Bassman |
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
– já me aconteceu antes.
Pois sei que
– em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade –
essa clareza de realidade
é um risco.
Clarice Lispector
domingo, 2 de maio de 2010
Soneto de Separação
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente
Vinícius de Morais
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.
De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente
Vinícius de Morais
sábado, 1 de maio de 2010
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Canção do Amor-Perfeito
O tempo seca a beleza.
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.
O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.
O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.
Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.
Cecília Meireles
seca o amor, seca as palavras.
Deixa tudo solto, leve,
desunido para sempre
como as areias nas águas.
O tempo seca a saudade,
seca as lembranças e as lágrimas.
Deixa algum retrato, apenas,
vagando seco e vazio
como estas conchas das praias.
O tempo seca o desejo
e suas velhas batalhas.
Seca o frágil arabesco,
vestígio do musgo humano,
na densa turfa mortuária.
Esperarei pelo tempo
com suas conquistas áridas.
Esperarei que te seque,
não na terra, Amor-Perfeito,
num tempo depois das almas.
Cecília Meireles
terça-feira, 27 de abril de 2010
Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer
entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter
fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não
entender, do modo como falo, é um dom. Não entender, mas não como um
simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma
benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse
manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a
inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos
entender que não entendo.
Clarice Lispector
segunda-feira, 26 de abril de 2010
Tempero do corpo
Território de memórias consumidas
aviam-se, na boca, dilúvios de saliva
é a língua, as amígdalas, os sisos e incisivos.
Cansadas batalhas do zigomático menor
Meu tímpano vibra ausente sua vontade.
Outrora,
quando já era tarde.... suavam graves seus beijos distorcidos
Agora,
que o amanhã é a hora... agudas são as presentes assombrações
Seu desejo não navega minhas ilíacas
Do distendido ventre exala a carícia do último caju.
Eis o convite dos derrotados em minhas meninges.
O amor não pega em suas tripas,
Calaram-se as ondas gigantes do miocárdio
vou beber no lamento do samba.
aviam-se, na boca, dilúvios de saliva
é a língua, as amígdalas, os sisos e incisivos.
Cansadas batalhas do zigomático menor
Meu tímpano vibra ausente sua vontade.
Outrora,
quando já era tarde.... suavam graves seus beijos distorcidos
Agora,
que o amanhã é a hora... agudas são as presentes assombrações
Seu desejo não navega minhas ilíacas
Do distendido ventre exala a carícia do último caju.
Eis o convite dos derrotados em minhas meninges.
O amor não pega em suas tripas,
Calaram-se as ondas gigantes do miocárdio
vou beber no lamento do samba.
Se faltam ainda noventa minutos para o fim do epitélio
Aprendes que coragem
não é
não ter medo no estômago
é justamente lançar-se
no mais que se teme
Ser assim,
realmente onça.
Ter na espinha sal, açúcar, pimenta
domingo, 25 de abril de 2010
...E ter tempo para ir se lembrando devagarinho das melhores horas, consumindo. Avante e volta, gostava de galopar no campo, o galope, o galope.
Assim, queria já ter vivido muito mais, senhor aproveitado de muitos rebatidos anos, para poder ter maior assunto em que se reconhecer e entender. A um modo, quando descobria, de repente, alguma coisa nova importante, às vezes ele prezava, no fundo de sua ideia, que estava só se recordando daquilo, já sabido há muito tempo, muito tempo sem lugar nem data, e mesmo mais completo do que agora estivesse aprendendo.
João Guimarães Rosa - A Estória de Lélio e Lina
Assim, queria já ter vivido muito mais, senhor aproveitado de muitos rebatidos anos, para poder ter maior assunto em que se reconhecer e entender. A um modo, quando descobria, de repente, alguma coisa nova importante, às vezes ele prezava, no fundo de sua ideia, que estava só se recordando daquilo, já sabido há muito tempo, muito tempo sem lugar nem data, e mesmo mais completo do que agora estivesse aprendendo.
João Guimarães Rosa - A Estória de Lélio e Lina
sexta-feira, 23 de abril de 2010
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